- Turnaround avança no Brasil e expõe fragilidade financeira das empresas em um cenário de juros elevados e crédito restrito.
- Especialista Estevão Seccatto aponta que o aumento das reestruturações indica deterioração da economia real, nem sempre captada pelos dados do PIB.
- Crescimento sem eficiência passa a ser visto como insustentável, pois margens comprimidas reduzem a capacidade de absorver variações de receita.
- A alavancagem não é inherently ruim, mas o problema surge quando a dívida não acompanha o ciclo operacional, gerando desequilíbrios de caixa.
- Crises exigem monitoramento constante e adaptação: gestão interna, planejamento estratégico e possibilidades de mudanças operacionais ou venda de ativos ajudam a preservar valor.
O avanço das reestruturações empresariais no Brasil revela fragilidade financeira entre as empresas diante de juros elevados, crédito restrito e consumo enfraquecido. O tema ganha destaque conforme especialistas observam deterioração da economia real não captada pelos dados agregados.
Estevão Seccatto, especialista em reestruturação, avaliou em entrevista ao Mercado & Beyond, da BM&C News, que o aumento de turnaround, recuperações judiciais e renegociações financeiras aponta para um cenário mais profundo do que o PIB indica.
O indicador de endividamento de empresas e famílias, segundo o especialista, funciona como termômetro da economia. Se a atividade estivesse saudável, não haveria necessidade de recorrer a tais medidas conforme ele.
Turnaround e a lógica do crescimento sustentável
Segundo Seccatto, o ambiente atual desafia modelos centrados apenas na expansão acelerada financiada por capital. Crescimento sem eficiência operacional e rentabilidade torna as empresas mais vulneráveis a oscilações.
Empresas com margens comprimidas mostram menor capacidade de absorver quedas de receita, ampliando riscos financeiros e restringindo a capacidade de atuação em cenários adversos. A geração de caixa passa a ser mais relevante que o crescimento nominal.
Crescer por crescer perde sentido quando a margem é baixa. A prioridade, na visão do especialista, é buscar eficiência e margens estáveis, em vez de expansão constante.
Crédito, alavancagem e alinhamento estratégico
Ao analisar o uso de crédito, Seccatto aponta que a alavancagem em si não é problema estrutural. O risco surge quando a dívida não acompanha o ciclo operacional e financeiro do negócio.
Segundo ele, muitos empresários recorrem a financiamentos de curto prazo para sustentar projetos de longo prazo ou despesas correntes, gerando desajuste financeiro e comprometendo pagamentos futuros.
A forma de tomar crédito, não o crédito em si, é o que pode gerar dificuldades, explicou o especialista.
Gestão interna e origem das crises
Ainda diante de um cenário desafiador, a maior parte das crises nasce dentro das próprias companhias. Decisões de gestão inadequadas, monitoramento insuficiente de riscos e planejamento deficitário costumam ter maior impacto do que fatores macro.
Estudos de reestruturação indicam que três quartos dos problemas corporativos decorrem de fatores internos. Muitos empresários resistem a buscar ajuda especializada, o que reduz as chances de recuperação e preservação de valor, conforme Seccatto.
Monitoramento, adaptação e preparação para crises
O especialista enfatiza que o empresário atua num ambiente com insegurança jurídica, mudanças regulatórias e volatilidade internacional. A capacidade de adaptação tornou-se ferramenta central de sobrevivência.
Empresas devem monitorar hábitos de consumo, movimentos da concorrência, concentração de fornecedores e mudanças geopolíticas que possam alterar cadeias globais. Crises devem ser tratadas como evento esperado no ciclo empresarial.
Turnaround como processo abrangente
O conceito de turnaround envolve mais que renegociação de dívidas. Pode incluir mudanças operacionais, estratégicas, societárias e até venda de ativos ou participação acionária para preservar a continuidade.
Quem reconhece problemas precocemente tende a preservar mais valor, ter acesso a capital em condições melhores e aumentar as chances de recuperação. Adiar decisões estratégicas tende a reduzir competitividade e valor de mercado.
Crise como mecanismo de seleção de mercado
Na avaliação final, o especialista aponta que períodos de retração econômica funcionam como um processo de seleção. Empresas mais eficientes e capitalizadas tendem a ampliar participação, enquanto negócios fragilizados enfrentam maiores dificuldades para sobreviver.
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