- Investigação da Receita Federal e do Ministério Público de São Paulo aponta movimentação de R$ 4 bilhões em transações entre postos de combustível, fornecedores de nafta e portos secos, entre setembro e abril, em cinco estados.
- A operação Fluxo Oculto, deflagrada nesta quinta, mira financiamento de um esquema da chamada Máfia dos Combustíveis com uso de fintechs, instituições de pagamento e fundos de investimento.
- Contas-bolsão permitiam depósitos em nome de terceiros, com controle contábil em “contas gráficas”; norma do Banco Central alterada em 2025 para exigir autorização prévia de qualquer instituição de pagamento.
- Mohamad Mourad, conhecido como Primo, é apontado como um dos líderes do tráfico de combustível adulterado; caso investiga dolo de instituições de pagamento e gestoras de recursos.
- Fundos de investimento ligados ao grupo compravam ativos como fazendas e veículos de luxo; patrimônio de quatro fundos investigados atinge cerca de R$ 205 milhões, com apuração dos beneficiários finais em andamento.
O esquema investigado pela Receita Federal e pelo Ministério Público de São Paulo envolve uma rede de postos de combustíveis, lojas de conveniência e padarias que, entre setembro e abril, movimentou cerca de R$ 4 bilhões. A operação Fluxo Oculto mira fornecedores de nafta e portos secos no interior do Brasil.
A apuração aponta Mohamad Mourad, conhecido como Primo, como um dos principais operadores do esquema de lavagem de dinheiro para o crime organizado no setor de combustíveis. O advogado dele não respondeu até o fechamento deste texto.
Os agentes rastrearam a cadeia até fornecedores autorizados de nafta e operadores logísticos, após a primeira fase da Carbono Oculto, deflagrada em agosto do ano passado. Documentos, computadores e celulares apreendidos levaram a novas empresas.
Contas-bolsão e brechas regulatórias
A investigação aponta uso de contas-bolsão para ocultar a origem dos depósitos. Fintechs abriam contas institucionais em nomes de terceiros, com clientes movimentando por meio dessas contas intermediárias.
Segundo o MPSP, a gestão centralizada ocorria em um grupo de cerca de 20 pessoas, com registro de várias empresas ligadas. A operação envolveu 59 mandados de busca e apreensão em cinco estados.
A Receita Federal destaca que uma norma do BC de 2021 permitia esse formato para instituições de pagamentos com pouco volume, o que facilitou depósitos sem identificação imediata. Nova norma de 2025 fechou a brecha, exigindo autorização prévia.
Fundos e circulação de recursos
Após o ingresso no sistema financeiro, os recursos eram dirigidos a fundos de investimento. Esses fundos compravam ativos no exterior, imóveis e veículos de luxo, retornando posteriormente aos operadores. Quatro fundos ligados ao grupo tiveram patrimônio estimado em R$ 205 milhões.
O Ministério Público avalia se houve dolo na atuação de IPs e gestoras de recursos, o que requer identificação do beneficiário final. A CVM foi acionada para atuar na fiscalização dos fundos exclusivos.
Fintechs, laranjas e movimentação financeira
A investigação identifica a passagem de contratos de fintechs para instituições de pagamento, com movimentação total estimada em R$ 4 bilhões. Entre as IPs citadas estão Ceopag, AmericaPay, Sispay, Vpay, May Servex e Smart Solutions.
A operação também aponta uso de laranjas para ocultar proprietários das empresas. A Smart Solutions aparece com registro em nome de pessoas com renda de um salário mínimo, apesar de ter movimentado mais de R$ 1 bilhão entre 2022 e 2024.
A fiscalização envolve a apresentação retroativa de dados de e-Financeira por parte de algumas IPs, enquanto o restante segue sob investigação para acesso às contas gráficas. A Receita deve seguir com diligências para identificar os cotistas e beneficiários finais.
A Polícia e os órgãos de fiscalização destacam que o cruzamento entre informações fiscais, aduaneiras e econômicas é essencial para desmantelar esquemas que prejudicam a concorrência e a arrecadação tributária.
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