- Em 2024, a participação do Brasil no comércio exterior foi de 35,6% do PIB, ainda acima da média histórica de cinquenta anos atrás.
- Especialistas atribuem esse atraso à escolha pelo modelo de substituição de importações, que criou mercados cativos e quase nunca abriu a competição externa.
- Obstáculos não tarifários, como barreiras sanitárias e regulatórias, também dificultam as exportações, segundo a CNI.
- O acordo Mercosul–União Europeia, em vigor provisoriamente desde 1º de maio de 2026, é visto como choque positivo que pode ampliar acesso a máquinas, insumos e mercados.
- Recomendações centrais para romper o isolamento: reduzir tarifas de forma gradual, melhorar infraestrutura e logística, fortalecer a segurança jurídica e promover uma cultura exportadora com branding brasileiro.
O Brasil permanece com circulação restrita de comércio exterior, o que, segundo especialistas, mantém o país em atraso de décadas. Em 2024, a participação do comércio externo no PIB ficou em 35,6%, conforme o Banco Mundial, menor que a média global da época. A região da América Latina já havia alcançado esse patamar em 1999.
Essa situação, apontam estudos, resulta de uma escolha histórica pelo modelo de substituição de importações. A ideia era proteger indústrias locais por meio de tarifas elevadas e restrições a importações. Com o tempo, porém, esse regime passou a funcionar como uma reserva de mercado permanente, reduzindo a competição.
Lia Valls, pesquisadora da FGV Ibre e professora da UERJ, explica que esse processo criou interesses setoriais fortes que resistem à abertura. A indústria passa a ter mercados cativos e resiste à mudança, segundo a pesquisadora. José Márcio Camargo, da Genial Investimentos, acrescenta que a proteção aumenta a demanda por mais proteção, dificultando investimentos.
O efeito dessa lógica é um ciclo de ineficiência: menos competição eleva custos e reduz incentivos tecnológicos. Nos anos 80, a reserva de mercado na informática resultou em produtos mais caros e menos avançados, prejudicando toda a cadeia produtiva. A consequência é atraso em diversos setores.
Barreiras não tarifárias também restringem as exportações. Em março, a CNI mapeou 107 obstáculos qualificados com 19 entidades do setor privado. Medidas sanitárias, regulamentos técnicos e barreiras de insumos dificultam o acesso de produtos nacionais a mercados externos.
Castro, presidente da AEB, afirma que a dificuldade de exportar não é apenas falta de acordos. Custos internos elevados, infraestrutura deficiente e uma postura reativa de mercado contribuem para o isolamento comercial. Estudos da CNI com o Movimento Brasil Competitivo indicam impacto bilionário para as empresas em 2021.
A integração em cadeias globais de valor também freia o crescimento. A dificuldade de importar insumos encarece a produção local e impede maior valor agregado. Enquanto o Brasil atrasava, a China avançava com zonas econômicas especiais; o País avançou com a ZPE de Pecém, no Ceará.
Entretanto, o agronegócio mostra um caminho de sucesso relativo, impulsionado por tecnologia e eficiência. A Embrapa, cultivo adaptado ao cerrado e maior produção mundial ilustram que investimento em ciência pode gerar competitividade sem recorrer apenas a proteções. Abertura é vista como necessária para ampliar bem-estar e reduzir preços ao consumidor.
O acordo Mercosul-União Europeia, em vigor provisoriamente desde maio de 2026, representa um choque de realidade. A UE zerará tarifas industriais e de boa parte agrícola, enquanto o Mercosul avança com liberações graduais. Analistas afirmam que o efeito principal será o acesso a insumos e maquinários modernos mais baratos, ajudando na redução de custos do setor produtivo.
Para romper o isolamento, especialistas indicam quatro pilares: redução tarifária gradual, melhoria do custo Brasil e segurança jurídica, investimento em infraestrutura e estímulo a uma cultura exportadora. O governo é apontado como agente central para sinalizar mudanças e facilitar a abertura com suporte a trabalhadores e empresas.
O consenso entre analistas é claro: a abertura requer esforço coordenado do Estado para reduzir custos internos, democratizar investimentos e ampliar a competitividade. Sem essa estratégia, o país tende a manter o atraso histórico na abertura comercial.
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