- Rendimentos dos Treasuries de dois anos subiram para cerca de 4,15%, o maior nível em mais de um ano, após dados econômicos fortalecerem a precificação de pelo menos uma alta de 0,25 ponto percentual em outubro.
- O movimento ocorre mesmo com a taxa básica do Fed formando um teto entre 3,5% e 3,75%, divergência que começou em março e se intensificou com o robusto mercado de trabalho.
- O novo presidente do Fed, Kevin Warsh, encara um mercado de títulos que teme que a instituição fique para trás da curva, enquanto alguns dirigentes sinalizam preocupação com a inflação e possibilidades de altas adicionais.
- Observadores discutem a taxa neutra de longo prazo do Fed, com estimativas de mercado para a taxa neutra real próxima de 1,8%, acima da mediana de 1,1% apresentada pelo Fed.
- A divulgação do CPI de maio, prevista para quarta-feira, pode alterar as expectativas sobre juros e política monetária, mas a narrativa permanece de juros relativamente altos para a curva de Treasuries.
O mercado de Treasuries sinaliza que as taxas de juros devem subir, segundo a leitura de indicadores econômicos recentes. Rendimentos dos títulos de dois anos atingiram o maior nível em mais de um ano, impulsionados pela expectativa de alta de 0,25 ponto percentual já em outubro.
Os títulos de dois anos operam perto de 4,15%, bem acima da faixa alvo atual do Fed, entre 3,5% e 3,75%. A diferença começou a se abrir em março, com dados de empregos que vieram acima das previsões.
Essa percepção ganhou força após a divulgação de números de empregos mais fortes do que o esperado, fortalecendo a convicção de que juros precisam subir para conter a inflação e evitar superaquecimento da economia diante do dinamismo causado pela IA.
O movimento de alta na curva de juros gera desafio para o Federal Reserve, especialmente para o novo presidente Warsh, que assume a próxima semana e participa de sua primeira reunião e entrevista coletiva.
A agenda de Warsh inclui lidar com um mercado de títulos cada vez mais preocupado com a possibilidade de o Fed ficar para trás, além de outros dirigentes que sinalizam vigilância sobre a inflação e a necessidade de ajustes de política.
Autores de gestoras têm visões distintas: alguns permanecem com exposição baixa a Treasuries, citando a resiliência econômica; outros avaliam riscos de aquecimento acelerado da atividade.
Segundo Andrzej Skiba, da RBC Global Asset Management, o cenário de aquecimento da economia com o impulso da IA é menção recorrente, ainda que não seja o cenário-base de sua equipe. A exposição aos juros se mantém próxima das referências, até sinalizar nova direção de Warsh.
A diferença entre rendimentos curtos e a taxa federal remete a um período de 2021 e 2022, quando o mercado precificou altas fortes para combater a inflação. A discussão atual volta a medir a taxa neutra, que guia o custo de financiamento sem estimular nem frear o crescimento.
Mudança de pressupostos
Em março, as projeções para a taxa neutra apontavam para 3,1%, apoiando uma postura mais permissiva. Pesquisas de mercado sugerem que esse patamar pode estar acima do estimado, impulsionado por gastos com infraestrutura de IA.
Barclays aponta que o debate se desloca para entender se o lado do emprego está acelerando e se a política monetária permanece restritiva. Uma reavaliação da taxa neutra pode reorganizar toda a curva de juros.
A taxa neutra ajustada pela inflação fica em cerca de 1,8%, acima da mediana do Fed, de 1,1% em termos reais. Economistas destacam que Warsh precisa definir se a política está em equilíbrio ou se ainda é restritiva.
O aumento dos rendimentos também impacta crédito: o título de 10 anos opera perto de 4,5%, elevando custos de financiamento imobiliário e corporativo. A Bloomberg Economics calcula que a alta recente soma cerca de 75 pontos-base em expectativas de aperto.
A divulgação do CPI de maio, prevista para quarta-feira, pode mudar as percepções do mercado sobre inflação e política do Fed. Um dado moderado pode diminuir a pressão por novas altas, mas não altera o foco da inflação persistente.
Para o mercado, a mensagem central é que rendimentos próximos de 4% devem passar a ser mais comuns ao longo da curva de Treasuries, mesmo com variações pontuais conforme o CPI e outras mensagens de inflação.
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