- El Niño forte pode provocar quebra de safra brasileira de soja em 2026/27; uma queda de 6% já seria suficiente para levar estoques globais ao menor nível em três anos.
- A faixa de estoque/consumo global cairia de 28% para 25%, elevando a sensibilidade dos preços a eventuais problemas climáticos ou geopolíticos.
- Brasil concentra o maior risco para o abastecimento mundial, com regiões como Centro-Oeste e Matopiba vulneráveis a veranicos e atrasos na chuva.
- Argentina não deve compensar de forma relevante, e a demanda por óleo de soja cresce com menos espaço para aumento de oferta global.
- Cenário base permanece com safra brasileira de soja de 182,4 milhões de toneladas, mas, no cenário de quebra, o efeito seria direto sobre estoques e preços; o milho também fica mais exposto a atrasos de plantio.
A quebra de safra no Brasil pode abalar o abastecimento global de soja, segundo relatório do Itaú BBA. O estudo aponta que, com El Niño forte, perdas de 6% na produção nacional para 2026/27 já seriam suficientes para reduzir estoques mundiais ao menor nível em três anos e pressionar preços.
O banco destaca que esse evento climático nem sempre eleva preços agrícolas de forma abrupta. Diferentemente da La Niña, o El Niño tende a deslocar impactos de oferta por geografia, com regiões fortes e pobres de chuva compensando entre si. Assim, a volatilidade tende a diminuir em episódios fortes.
Entretanto, o Itaú BBA ressalta que a maior participação do Brasil e da Argentina nas exportações globais aumenta o peso de choques regionais. Hoje, as duas nações respondem por cerca de 65% das exportações de soja, elevando a sensibilidade do mercado a eventos sul-americanos.
Perspectivas e cenários para 2026/27
O fenômeno El Niño já é considerado confirmado, com 63% de probabilidade de intensidade muito forte na safra 2026/27. Caso se confirme, pode haver irregularidade de chuvas no Centro-Oeste e no Matopiba, áreas cruciais para a expansão agrícola brasileira.
Em um cenário de queda de 6% na produção, a soja brasileira cairia para cerca de 169 milhões de toneladas. A oferta global recuaria em 11 milhões de toneladas, pressionando estoques finais próximos de 108 milhões de toneladas, o menor desde 2023/24.
A relação estoque/consumo global cairia de 28% para 25%, aumentando a sensibilidade dos preços a novos choques climáticos ou geopolíticos. O relatório aponta que, mesmo com menor espaço de folga, não há indicação de ruptura imediata no balanço global.
América do Sul e demanda
A Argentina, que já operava com patamares normais, não deve compensar de modo relevante eventuais perdas no Brasil. Diferentemente de 2023/24, não houve recuperação expressiva na produção argentina, o que reduz a capacidade de neutralizar choques.
O Itaú BBA aponta que a demanda ganha protagonismo, com expansão de biocombustíveis elevando o consumo de óleo de soja e o esmagamento de grãos. Mesmo sem queda abrupta de estoques, o mercado caminha para um superávit relativamente limitado.
Milho e outros impactos
Além da soja, o milho também enfrenta riscos com o El Niño, pois atrasos no plantio da soja costumam adiar a semeadura do milho safrinha. A janela de cultivo fica menos favorável, aumentando a exposição ao déficit hídrico.
Historicamente, o milho de segunda safra é mais sensível ao El Niño do que a soja, o que eleva o grau de vulnerabilidade da oferta global de grãos. Com isso, o balanço de grãos pode permanecer apertado diante de novas adversidades climáticas.
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