- Banco Central cortou a Selic para 14,25% e estendeu o horizonte de política para 2028.
- O economista Jeferson Bittencourt afirma que a extensão do horizonte serviu como “bengala” para cortes e arranhou a reputação da autoridade.
- Ele questiona por que há tolerância maior com o quanto a inflação fica acima da meta do que com o quanto fica abaixo.
- Bittencourt aponta que alinhar projeções ao Focus e ao Questionário Pré-Copom não garante convergência da inflação, sinalizando comunicação ruída.
- O cenário aponta pausa no ciclo, depende de petróleo estável (em torno de US$ 77 o barril) e ausência de novos choques de programas governamentais; sugere revisão de regras fiscais, especialmente o teto de gastos.
O BC decidiu cortar novamente a Selic e estender o horizonte de referência para 2028. A medida, apresentada na ata da decisão, gerou críticas de scholars e analistas que questionam se o recuo atual é compatível com a trajetória da inflação.
Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA e ex-secretário adjunto do Ministério da Fazenda, disse que o argumento de manter o corte com base na inflação de curto prazo é visto por ele como uma bengala. Ele aponta que esse movimento arranha a reputação da autoridade.
Ele avalia que a convergência da inflação não ocorre de forma previsível e que o BC pode terminar afastando-se do centro da meta se permanecer alinhado a trajetórias de mercado, como as indicadas pelo Focus e pelo QPC.
Contexto da decisão
Bittencourt destaca a diferença entre o diagnóstico duro da ata e a decisão de juros mais branda. Segundo ele, manter a linha de projeção que não se afasta do esperado pelo mercado amplia o risco de a inflação ficar distante da meta.
Para o economista, a leitura sugere pausa no ciclo de acomodações, já que o texto da ata retirou sinais de cortes contínuos e fala apenas em possibilidade residual de redução de 0,25 ponto percentual. O cenário externo também pesa, com o barril de petróleo perto de US$ 77.
Desafios e caminhos
O enfoque passa pela política fiscal e pelos gastos do governo. Bittencourt alerta que incentivos fiscais ajudam a estimular a economia, dificultando o trabalho de combate à inflação pelos juros altos.
Ele defende rever parâmetros estruturais do arcabouço fiscal, especialmente o limite de crescimento da despesa total acima da inflação. A ideia é evitar que a despesa discricionária ocupe espaço que, hoje, seria ocupado pela despesa obrigatória.
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