- Com a Selic acima de dois dígitos e sem alívio à vista, as provisões para devedores duvidosos atingiram 7,9% da carteira em fevereiro de 2026, maior nível histórico do Banco Central.
- Bradesco registrou alta de 25% nas despesas com provisões em um ano; no BB, a inadimplência do agronegócio subiu de 0,6% para 6,2% em três anos.
- A piora do cenário levou bancos a venderem mais carteiras inadimplentes, abrindo espaço para gestoras como Jive Mauá, Mobius Capital, IOX Capital e Neo Investimentos disputarem ativos de crédito estressado.
- O volume de fundos de crédito para recuperação de ativos (FIDCs) cresceu de 140 para 157 entre janeiro de 2024 e abril de 2026, com patrimônio total de cerca de R$ 22,5 bilhões.
- Empresas e gestoras veem oportunidades no crédito podre, especialmente no agronegócio, com pioneiras como Jive Mauá e Mobius preparando novos fundos e estratégias de aquisição de créditos individuais ou em blocos.
O novo mapa do crédito leva ativos estressados a ganhar espaço nas mesas de negociações. Juros elevados mantêm o sistema financeiro pressionado, enquanto bancos vendem carteiras de devedores duvidosos para reduzir risco em balanços.
Com a Selic acima de 14% e sem previsão de alívio, as provisões para créditos de duvidosa recuperação atingiram 7,9% da carteira total em fevereiro de 2026, recorde histórico do Banco Central. Bradesco também registrou alta de 25% nas despesas com provisionamento em 12 meses.
O agronegócio figura como epicentro da crise: no Banco do Brasil, a inadimplência agrícola subiu de 0,6% em 2022 para 6,2% em 2026, enquanto a direção ampliou as provisões para 9,7% dessa carteira, para sustentar perdas estimadas em mais de 40 bilhões de reais.
Essa conjuntura alimenta uma indústria de fundos especializados em recuperação de crédito. Dados da Uqbar apontam 157 FIDCs dedicados a esse tipo de ativo, com patrimônio agregado de 22,5 bilhões de reais. Bancos buscam limpar balanços pela venda de carteiras inadimplentes, e gestoras como Jive Mauá, Mobius Capital, IOX Capital e Neo Investimentos disputam o recebível.
Jive Mauá prepara novo fundo para captação no segundo semestre, visando explorar o aumento de oportunidades no crédito estressado. A gestora já investiu cerca de 1,8 bilhão de reais em 20 a 25 transações ao longo dos últimos 15 meses, com foco em single names, ou seja, casos avaliados individualmente.
A Mobius Capital, por sua vez, trabalha na estruturação do terceiro fundo, com o first closing esperado para julho. A firma opera com aproximadamente 800 milhões de reais sob gestão distribuídos em 11 veículos, e atua exclusivamente no crédito high yield, incluindo estruturas de crédito estruturado e ativos judiciais.
No ouvido do setor, o ganho de oferta de ativos tem acelerado. Segundo o sócio-fundador da Mobius, Renato Herkenhoff, as oportunidades aparecem com maior frequência, sobretudo no agronegócio, onde produtores alavancados perdem ativos para investidores com capital novo. A estratégia da gestora inclui aquisição de fazendas com opção de recompra para o produtor.
A IOX Capital também observa expansão na oferta de ativos de NPL, com aumentos de até 50% nas movimentações recebidas. O CEO Richard Ionescu afirma que o mercado está apenas no começo e que há espaço para crescer, com várias oportunidades ainda por explorar.
A Neo Investimentos atua principalmente na compra de dívidas de consumo e de cartão de crédito voltadas a pessoas físicas, com desconto agressivo. O sócio e head de crédito Arnaldo Ferreira Braga Neto indica que a empresa busca ganhos mediante compras a apenas alguns pontos percentuais de deságio, visando margens expressivas após recuperação.
Especialistas destacam que, apesar da maior dificuldade de concessão de novos créditos, o prazo de recuperação de ativos deve manter a pressão sobre balanços. A combinação de juros elevados, inadimplência elevada em setores-chave e uma oferta crescente de ativos estressados tende a manter o mercado de crédito podre aquecido nos próximos trimestres.
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