- Um estudo da CNC aponta que as bets levaram 270 mil famílias à inadimplência severa; bancos endividaram 81,7 milhões de brasileiros, com juros de até 61% ao ano, em mais de uma década.
- O endividamento não começou com as bets: juros reais altos (9,3%), spread de 34,6 pontos percentuais e crédito que penaliza quem tem menos.
- O projeto Brasil contra as bets, de 26 de maio, sustenta regulação e combate ao jogo compulsivo, mas o diagnóstico pode ser incompleto e a solução, piorar o quadro.
- Houve regulamentação recente com Portaria n° 2.579 e Instrução Normativa n° 31, criando autoexclusão, autolimites e banco de dados de apostadores compulsivos; bancos, lotéricas e outras instituições não foram obrigados a adotar mecanismos similares.
- O mercado legal recolhe impostos altos (quase R$ 10 bilhões em 2025; R$ 2,5 bilhões nos dois primeiros meses de 2026) e há mais de 25 mil sites não autorizados bloqueados em parceria com a Anatel; a disseminação do mercado clandestino é evidência da necessidade de foco na regulação do setor como um todo.
O estudo da CNC, divulgado em abril, aponta que as bets teriam empurrado 270 mil famílias à inadimplência severa. Ao mesmo tempo, o total de brasileiros endividados nos bancos chegou a 81,7 milhões, crescimento de 38% em dez anos, com juros de até 61% ao ano. O documento ressalta ainda a ausência de uma bancada suprapartidária para enfrentar o tema.
A pesquisa também descreve um cenário mais amplo de endividamento no país. A taxa Selic acima de 14% contribui para tornar o crédito menos acessível a trabalhadores comuns, elevando a vulnerabilidade financeira de famílias de baixa renda. Dados da CNC indicam que 80,4% das famílias estavam endividadas em março deste ano, nível recorde.
Contexto do endividamento
O debate público sobre as apostas não se resume às bets. Analistas lembram que, independentemente do jogo, o endividamento se sustenta em juros elevados, histórico de crédito desigual e políticas monetárias restritivas. Há quem questione a priorização de ataques às apostas em detrimento de questões macroeconômicas mais estruturais.
Outra linha do texto aponta para a regulação como instrumento essencial. O projeto Brasil contra as bets, protocolado em 26 de maio, defende medidas contra o jogo compulsivo. Porém, especialistas afirmam que a regulação deveria colocar foco no combate ao mercado clandestino, reduzindo riscos aos consumidores, sem onerar quem já está dentro da lei.
Regulação e atuação do governo
A Secretaria de Prêmios e Apostas publicou a Portaria nº 2.579 e a Instrução Normativa nº 31, que criam mecanismos de autoexclusão, autolimites de apostas e um banco de dados de apostadores com comportamento compulsivo. A gestão pública destaca que a proposta é inédita entre setores regulados no Brasil.
As operadoras licenciadas recolhem impostos próximos a R$ 10 bilhões em 2025, e registraram R$ 2,5 bilhões nos primeiros dois meses de 2026, sob fiscalização contínua. Em parceria com a Anatel, a SPA já bloqueou mais de 25 mil sites não autorizados, evidenciando a dimensão do mercado clandestino.
Críticos lembram que a proibição de publicidade pode favorecer justamente o mercado ilegal, ao reduzir a visibilidade de operadores legais. Defender a regulação envolve equilibrar proteção ao consumidor com a não perpetuação de práticas de incentivo ao consumo de risco.
Cristiano Costa, psicólogo e diretor de conhecimento da EBAC, afirma que o debate deve ir além de classificar as bets como ruins e, sim, entender por que parcela expressiva da população recorre a mecanismos de alavancagem financeira.
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