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Brasil: aumento de carga revela déficit de trilhos nas ferrovias

No Brasil, expansão ferroviária pode gerar até R$ 40,1 bilhões/ano em frete e evitar até 8,3 milhões de t de CO₂ por ano a partir de 2035

Thiago Guilherme Péra – Foto: Arquivo pessoal
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  • O Brasil tem muita carga para transportar, mas a malha ferroviária é pouco desenvolvida, com linhas isoladas e peso ainda maior sobre as rodovias.
  • Vantagens da ferrovia: cada composição pode ter entre 70 e 130 vagões, carregando entre 70 e 120 toneladas, sendo mais eficiente e emitindo menos gases por tonelada transportada.
  • Hoje, 75% do volume ferroviário é minério de ferro; o agronegócio representa 20%, grãos 10%, açúcar 3,1% e contêineres 1,2%.
  • Entre 2010 e 2023/2024 houve crescimento do transporte de grãos (de 23 milhões para pouco mais de 50 milhões de toneladas), mas a participação ferroviária em soja exportação caiu de 47% para 33,4%, enquanto quase todos os grãos seguem por caminhão no mercado interno.
  • Estudo da Esalq-Log aponta ganhos econômicos e sociais com expansão ferroviária até 2035 e 2050, incluindo aumento do PIB, redução de CO₂ e melhoria de renda em áreas menos favorecidas, destacando a urgência de ação para reduzir a dependência do rodoviário.

O Brasil segue diante de um paradoxo logístico: há produção recorde, especialmente no agronegócio, e, ao mesmo tempo, uma malha ferrovia insuficiente para escoar a carga. A reportagem analisa os números e os impactos desse desequilíbrio na matriz de transportes.

A pesquisa aponta que o transporte ferroviário tem alta capacidade por comboio, com 70 a 130 vagões e 70 a 120 toneladas por vagão. Em comparação, o transporte rodoviário tende a carregar menos por viagem, aumentando a dependência de caminhões.

A análise utiliza dados do Esalq-Log e registra que 75% do volume ferroviário é minério de ferro, enquanto o agronegócio representa 20% e grãos apenas 10%. Os contêineres respondem por 1,2% do movimento total.

Concentração de cargas

Entre 2010 e 2024, o volume de grãos em trem cresceu de 23 milhões para pouco mais de 50 milhões de toneladas, porém o câmbio não foi suficiente para reduzir a dependência de caminhões. O transporte de soja para exportação caiu de 47% para 33,4% via ferrovia, enquanto o uso de caminhões subiu para 47%.

No mercado doméstico, quase 97% dos grãos são movimentados por caminhão, evidenciando a limitação da malha atual e a fragilidade da matriz logística nacional.

Desvios de planejamento e cenários futuros

Planos nacionais apontam para maior participação de modais de longo curso, mas o Brasil permanece com linhas isoladas em vez de uma rede integrada. A consequência é maior custo econômico, social e ambiental por não ampliar a infraestrutura ferroviária.

Pesquisas do Esalq-Log simulam cenários até 2035 e 2050. Economicamente, a expansão geraria fretes mais baixos e PIB adicional entre 13,6 e 74,7 bilhões até 2035, e entre 41,6 e 232,3 bilhões até 2050. A cada R$ 1 investido, o retorno varia entre 0,60 e 6,00, conforme o cenário.

Do ponto de vista ambiental, a migração de carga para a ferrovia evitaria entre 2,5 e 8,3 milhões de toneladas de CO₂ por ano a partir de 2035, reduzindo entre 2,7% e 9,2% as emissões do transporte de cargas.

Socialmente, a ausência de ferrovia penaliza municípios isolados e agricultores com margens menores, elevando o custo do alimento e limitando investimentos. A expansão ferroviária ampliaria o consumo real em camadas de menor renda.

Caminho a seguir

Os números sugerem que investir em ferrovia é essencial para reduzir custos, emissões e desigualdades regionais. A pergunta central não é se vale investir, mas como acelerar a implementação de uma rede integrada.

Se não houver atuação rápida, o cenário descrito tende a se repetir até 2035: maior volume de carga, trilhos insuficientes e emissões mantidas em patamares elevados.

Fonte: Esalq-Log e dados complementares de referência. Este texto reescreve o conteúdo para o Portal Tela, preservando a essência das informações do Valor Econômico, edição de 26/6/2026.

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