- Ben Ross Schneider, professor de Ciência Política do MIT, concedeu entrevista exclusiva à coluna sobre reformas educacionais no Brasil.
- Ele aponta que a educação, no Brasil e na maioria da América Latina, não tem a relevância eleitoral que deveria, ficando geralmente em quarto ou quinto lugar nas preocupações da população.
- Sugere tornar o tema mais presente em eleições publicando os resultados do Ideb antes das votações; cita o caso do Chile, onde a educação foi pauta central após mobilizações sociais.
- Enfatiza a necessidade de coalizões amplas entre sociedade civil, sindicatos e instituições para manter reformas de longo prazo, como ocorreu com a BNCC no Brasil.
- Aponta que melhorar a qualidade exige despolitizar contratações, selecionar melhor o pessoal e investir na primeira infância, já que metade dos estudantes brasileiros não atinge o nível básico no Pisa, segundo o especialista.
O tema da educação ainda não recebe a relevância eleitoral que deveria, segundo Ben Ross Schneider, professor de Ciência Política do MIT. Em Brasília, na semana passada, ele participou do seminário internacional Gestão Educacional: Desafios e Perspectivas para a Garantia do Direito à Educação, realizado pela Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação em parceria com o Instituto Unibanco. A entrevista ocorreu em exclusividade à coluna.
Schneider explicou que, na América Latina, a educação costuma ficar atrás de corrupção e economia no ranking de preocupações. O pesquisador cita o Chile como exemplo de avanço, promovido por uma campanha eleitoral que tratou a educação como uma reforma fundamental.
A força da coalizão
No Chile, uma coalizão ampla de organizações da sociedade civil, incluindo associações, think tanks, sindicatos de professores e organizações de base, discutiu a reforma da carreira docente. O governo acabou incorporando esse consenso, facilitando a aprovação das mudanças. O pesquisador aponta que a negociação com o sindicato foi decisiva para o êxito.
No Brasil, segundo Schneider, falta essa conexão entre setores da sociedade e o governo. Ele afirma que reformas sem apoio de professores e sindicatos tendem a enfrentar resistência na implementação e na sala de aula.
Construção de reformas duradouras
Schneider ressalta que reformas educacionais exigem apoio político estável, sobretudo em países federativos. Ao contrário de políticas econômicas com mudanças rápidas, as mudanças na educação precisam de continuidade para chegar às escolas.
Ele cita a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) como exemplo positivo no Brasil: um processo participativo iniciado em 2015 que reuniu sociedade civil, sindicatos e entidades como Consed e Undime. Segundo o pesquisador, o movimento manteve pressão por reformas ao longo de diferentes governos.
O que eleva a qualidade da educação
Para melhorar a qualidade, o pesquisador defende despolitização de contratações e gestões, recrutamentos mais seletivos e boa formação de docentes. Dados de vários países indicam ganhos com estabilidade e mentoria na carreira docente.
Schneider compara a situação brasileira com a média da OCDE, indicando que o Brasil está atrás em desempenho educacional. Ele lembra que recursos nem sempre se traduzem em melhorias, ressaltando que algumas áreas menos favorecidas chegam a ter melhores resultados que regiões mais ricas.
Desafios no Brasil
O especialista aponta que o espaço de política pública educacional é ainda relativamente vazio, com beneficiários pouco representados politicamente. As coalizões pró-reforma são fracas, e a classe média tem menor participação no sistema público.
Além disso, ele destaca a importância de pressionar pela participação de setores industriais na melhoria da educação, para que haja demanda por mão de obra qualificada. Observa que, sem essa pressão, o avanço pode permanecer insuficiente.
Olhando para o futuro próximo
O debate, segundo Schneider, precisa considerar a aprendizagem desde a educação infantil. Investimentos nessa etapa são vistos como de alto impacto para o longo prazo, especialmente diante de evidências de déficit de proficiência entre alunos de 15 anos no Pisa.
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