- Estudo internacional da OCDE (IELS) avaliou crianças de cinco anos em nove países, incluindo o Brasil, com aplicação direta em tablets.
- No Brasil, 2.500 crianças de 91 municípios, em três estados (São Paulo, Ceará e Pará), foram avaliadas; 50,4% usam dispositivos digitais todos os dias.
- Desempenho em literacia ficou próximo à média internacional (500 pontos), mas numeracia ficou abaixo da média em cinco anos.
- Habilidades socioemocionais e funções executivas também ficaram abaixo da média internacional, com impactos menores registrados em memória de trabalho, controle de impulsos e empatia.
- Conclusão dos pesquisadores: uso diário de telas não explica sozinha o menor desenvolvimento, mas pode reduzir tempo dedicado a atividades importantes para o desenvolvimento infantil.
Uma avaliação internacional realizada pela OCDE analisou o impacto do uso diário de dispositivos digitais por crianças de 5 anos. O estudo IELS envolve nove países, entre eles o Brasil, e mede literacia, numeracia, habilidades socioemocionais e funções executivas. A divulgação ocorreu nesta terça-feira.
No Brasil, a pesquisa avaliou crianças de três estados: São Paulo, Ceará e Pará, com participação de cerca de 2.500 alunos. A amostra contou com atividades em tablets e relatos de professores e pais. O levantamento é financiado por uma coalizão de organizações do terceiro setor, liderada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal.
Os resultados indicam desempenho semelhante ao internacional na literacia, mas abaixo da média em numeracia. Nas funções executivas e nas habilidades socioemocionais, os brasileiros ficaram aquém da média global. O estudo ressalva que não demonstra causalidade direta entre uso de telas e desenvolvimento, mas aponta associação entre uso diário e menor desempenho em várias áreas.
O que é o IELS?
É uma avaliação da OCDE aplicada a cerca de 25 mil crianças de 5 anos, em nove países, com foco em literacia, numeracia, socioemocional e funções executivas. No Brasil, o procedimento incluiu atividades em tablets e questionários para familiares e docentes.
Como foram feitas as avaliações?
As crianças realizaram atividades digitais, enquanto professores e pais responderam perguntas sobre rotinas e ambientes de estudo e casa. Os números são comparados com a média internacional de 500 pontos, que norteia a interpretação dos resultados.
O uso de telas no Brasil
No país, 50,4% das crianças utilizaram dispositivos digitais todos os dias, acima da média internacional de 46%. Em comparação, a Holanda teve 24% e 11,4% das crianças brasileiras nunca ou quase nunca acessaram telas. Pesquisadores cruzaram esse dado com o rendimento na avaliação, observando que o uso diário está associado a 10 pontos a menos na literacia e 11 pontos a menos na numeracia, com significância estatística.
Interpretações e impactos
A equipe responsável afirma que os dados não indicam causalidade direta, mas sugerem que o tempo diário com telas pode reduzir o tempo dedicado a atividades importantes para o desenvolvimento, como leitura, brincadeiras, atividades físicas e interações sociais. O estudo brasileiro foi conduzido por Tiago Bartholo e Mariane Koslinski, da UFRJ.
Desempenho por área
Nas habilidades socioemocionais, as crianças brasileiras tiveram desempenho semelhante à média internacional na empatia, mas ficaram aquém em aspectos como controle de atitudes agressivas e comportamento pró-social. Em memória de trabalho e autorregulação, os resultados ficaram abaixo da média global.
Estrutura da pesquisa no Brasil
O IELS envolveu 240 escolas e centros de educação infantil em 91 municípios, com participação de cerca de 2.500 crianças, 80% em instituições públicas e 20% privadas. Os resultados indicam diferenças favoráveis às crianças de rede privada, principalmente na numeracia.
Leitura de livros e rotina infantil
O estudo também avaliou hábitos que influenciam a aprendizagem, como a leitura de livros em casa. Enquanto 53% dos pais brasileiros afirmam ler para os filhos com pouca frequência, o dado global aponta prática mais frequente em média, revelando desigualdades que já começam na primeira infância.
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