- Sessenta e três por cento? Não: 53% das famílias brasileiras nunca ou raramente leem para crianças de cinco anos em Ceará, Pará e São Paulo; apenas 14% leem de três a sete vezes por semana, frente à média mundial de 54%.
- O IELS-2025 envolveu 2.598 crianças em 210 escolas (80% públicas) das três estados, com atividades lúdicas, entrevistas com famílias e professores e avaliação em três áreas do desenvolvimento.
- Observa-se desigualdade já no fim da pré-escola: literacia emergente ficou ligeiramente acima da média internacional (502 vs. 500), mas numeracia emergente ficou 44 pontos abaixo da média global (456); altas diferenças entre níveis socioeconômicos na relação com numerais.
- Uso de telas é frequente: 50,4% das crianças utilizam dispositivos digitais todos os dias; 62% raramente ou nunca realizam atividades educativas em telas; 11,4% quase nunca usam telas.
- O estudo aponta necessidade de políticas públicas intersetoriais de parentalidade e maior envolvimento entre famílias e escolas para apoiar o bem‑estar e o desenvolvimento, destacando desigualdades por raça, gênero e renda.
O estudo internacional IELS-2025, desenvolvido pela OCDE, aponta que 53% das famílias brasileiras nunca ou raramente leem livros para crianças de 5 anos na pré-escola, nos estados do Ceará, Pará e São Paulo. Os dados foram divulgados nesta terça-feira (5).
Entre os responsáveis, apenas 14% realizam leitura compartilhada entre três e sete vezes por semana, contra uma média global de 54%. A pesquisa foi publicada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal com base no levantamento IELS.
Tiago Bartholo, coordenador da pesquisa na UFRJ, destaca que a situação é crítica mesmo entre famílias de maior renda, com índices de leitura frequente abaixo de 25%. A leitura compartilhada é vista como essencial ao desenvolvimento infantil.
Desempenho por áreas
No domínio literacia, a pontuação média brasileira ficou em 502 pontos, levemente acima da média internacional, 500. A variação por renda foi pequena, com desempenho relativamente estável.
Em numeracia emergente, o Brasil ficou com 456 pontos, 44 abaixo da média internacional. Houve grandes disparidades entre crianças de diferentes classes socioeconômicas, principalmente no uso de numerais.
Desigualdades raciais e socioeconômicas
O estudo revela desigualdades significativas por raça e renda. Meninos, pretos, pardos e indígenas, de menor nível socioeconômico, apresentam maiores dificuldades. Crianças brancas têm vantagem de até 40 pontos em numeracia.
O recorte racial é único entre os países pesquisados pela OCDE. A diferença entre crianças brancas e pretas é evidente em várias dimensões, destacando-se na linguagem e na numeracia.
Telas e aprendizado
Mais da metade das crianças usa dispositivos digitais diariamente, conforme relatos dos pais. O Brasil excede a média dos países participantes, 50,4% contra 46%.
Apenas 11,4% das crianças nunca ou quase nunca usam telas. Bartholo ressalta que uso excessivo de telas está relacionado a menor desempenho em leitura, escrita e matemática.
Sobre atividades educacionais em telas, 62% raramente ou nunca realizam esse tipo de prática, enquanto 19% utilizam dispositivos entre três e sete vezes por semana com foco educativo.
Crianças saem menos de casa
A participação em atividades ao ar livre é de 37% das famílias, abaixo da média internacional de 46%. Quase 29% não realiza esse tipo de atividade ou faz menos de uma vez por semana.
O estudo reforça a importância de exposições a bibliotecas, oficinas, cursos e atividades esportivas, associadas ao desenvolvimento físico, cognitivo e socioemocional. Barreiras como custo e disponibilidade local são citadas.
Ouvir a criança
Mais de metade das famílias (56%) conversa com as crianças sobre sentimentos entre três e sete dias por semana. Mesmo assim, esse diálogo é menos frequente que a média internacional (76%).
Conversa sobre emoções, materiais compartilhados e resolução de conflitos aparecem como oportunidades de aprendizagem importantes para vínculos afetivos e desenvolvimento social.
Funções executivas
Entre as funções avaliadas, a memória de trabalho é a mais afetada pelo nível socioeconômico, com diferença de 39 pontos entre classes alta e baixa. O desempenho médio brasileiro fica abaixo da média internacional.
As médias nos três domínios de funções executivas — memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade mental — apresentam diferenças moderadas a grandes, com resultados estatisticamente significativos.
Contexto e alcance
O IELS-2025 envolve Brasil, Azerbaijão, Bélgica, China, Coreia do Sul, Emirados Árabes, Holanda, Malta e Inglaterra. O Brasil foi o único país da América Latina a participar da pesquisa OCDE.
O estudo foi realizado com apoio de um consórcio de instituições liderado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. Os resultados visam embasar políticas públicas para a primeira infância nas áreas de saúde, educação e proteção social.
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