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Livros infantis na Rússia revolucionária buscavam moldar pessoas novas

Livro analisa a literatura infantil russa na era soviética, mostrando como educou cidadãos livres e traçou paralelos com a produção infantil brasileira

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  • Lançamento do livro A Vanguarda do Livro Russo Infantil – Contexto e Diálogos com o Brasil, de Daniela Mountian, pela Editora da USP, analisa a literatura infantil russa desde a era de ouro até a época Stalinista.
  • A obra destaca como a literatura infantil foi usada pelo Estado para formar cidadãos e trabalhadores conscientes na Rússia soviética, em meio a debates sobre educação e moral.
  • O estudo mostra a contribuição de autores da era czarista, como Aleksândr Púchkin e Vladímir Odoiévski, cuja tradição oral influenciou a narrativa infantil e a prosa não infantil.
  • Na década de 1920, com crise econômica, poetas como Vladímír Maiakóvski passaram a produzir poemas infantis politicamente orientados, buscando uma nova visão de mundo para as crianças.
  • O livro traça diálogos entre a literatura infantil russa e a brasileira da época, destacando semelhanças e diferenças entre autores e obras de ambos os países.

O livro A Vanguarda do Livro Russo Infantil – Contexto e Diálogos com o Brasil analisa a trajetória da literatura infantil na Rússia, desde as experimentações do início da era soviética até as obras que tinham função moralizante na época stalinista. A publicação foi lançada pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) e tem 368 páginas.

A obra, de Daniela Mountian, professora de Literatura Russa da UFRGS, destaca o papel da literatura infantil na formação de uma nova identidade social após a Revolução de 1917. Segundo a autora, o Estado viu o gênero como instrumento para moldar homens e mulheres livres da velha moral burguesa.

No texto, Mountian percorre a chamada era de ouro da literatura russa, marcada por autores como Vladímir Odoiévski, Aleksándr Púchkin e Ivan Turgueniév. As narrativas infantis da época buscavam enriquecer a tradição de contos populares e estimular a imaginação das crianças.

A pesquisadora aponta que a produção infantil ganhou importância ideológica na década de 1920, quando poetas e artistas gráficos desenvolveram linguagens próprias para o público infantil, muitas vezes associadas a objetivos políticos ou de sobrevivência cultural.

Entre as figuras centrais desse período, destaca-se Vladímir Maiakóvski, o chamado Poeta da Revolução. Em 1927, ele afirmou que a literatura infantil era uma via para apresentar uma nova visão de mundo às crianças, sem abrir mão da qualidade literária.

O caso de Maiakóvski é exemplificado em Conto sobre Piétia, Um Menino Gordo, e Sima, Que Era Esbelto, obra criticada na época por seu humor áspero. O poema apresenta uma comparação entre um filho de um burguês e outro de um proletário, com críticas à burguesia e defender dos direitos dos trabalhadores.

Diálogos com autores brasileiros

A obra também traça paralelos entre a literatura infantil russa e a brasileira dos anos 1920. Mountian aponta semelhanças históricas e sociais entre os dois países, como grandes territórios e trajetórias marcadas por monarquias e servidão.

Assim como no Brasil, a Rússia viveu um momento de efervescência cultural ligada às vanguardas europeias. Em ambos os contextos, houve produção de obras que buscaram renovar a forma de contar histórias para crianças, com foco em linguagem experimental e conteúdo de significado social.

A pesquisadora compara ainda a produção de Tales de Andrade, um dos precursores da literatura infantojuvenil brasileira, com Aleksei Tolstói. Segundo Mountian, há semelhanças em obras de transição que tratam da infância e da formação do indivíduo, ainda que com propósitos diferentes.

Cecília Meireles e Kornei Tchukóvski aparecem como pontos de contato na percepção do universo infantil. Mountian ressalta que ambos valorizavam a autonomia da criança e o potencial literário da linguagem voltada ao público infantojuvenil.

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