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Santo Domingo: cidade que ocultou a escravidão ao longo da história

Afro-Dominicanos reivindicam o reconhecimento de Micaela e da revolta de Boca de Nigua, ampliando a memória histórica e o turismo da região

Stanley Chen Xi/Getty Images The Dominican Republic's history is intertwined with more than 28 African tribes who were brought to Santo Domingo as slaves (Credit: Stanley Chen Xi/Getty Images)
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  • A Hospital de San Nicolás de Bari, primeira instituição hospitalar nas Américas, foi criada após a atuação de uma mulher negra que curava os pobres; o relato aparece em manuscrito do século XVI.
  • A República Dominicana recebeu os primeiros africanos nas Américas e foi onde começou o tráfico de escravos em 1503; a história africana é pouco apresentada na Zona Colonial.
  • A ativista Maribel Nuñez promove a Jornada de Visibilización del Cimarronaje, um tour que revela a contribuição africana na história do país.
  • Boca de Nigua, em 30 de outubro de 1796, abrigou uma das maiores rebeliões de escravizados no lado espanhol da ilha, com lideranças como Ana María; há propostas para tornar o local Patrimônio Mundial e instituir o Dia da Africanidade.
  • Em Villa Mella, comunidades afro-dominicanas preservaram tradições musicais como palo/atabales; o país celebra uma fusão cultural que vai além do legado espanhol observado na Zona Colonial.

O Hospital de San Nicolás de Bari, ruínas do século XVI no coração da Zona Colonial de Santo Domingo, abriga a memória de Micaela, a mulher negra que inspirou a construção do primeiro hospital nas Américas. A narrativa surge na documentação de um manuscrito do século XVI, transcrito pelo Dominican Studies Institute da City University of New York.

Maribel Nuñez, ativista e líder da Acción Afro-Dominicana, relata que Micaela usou conhecimentos de medicina natural para cuidar dos doentes, mesmo diante de condições humildes. Hoje, a história é lembrada por quem luta pela visibilidade da herança afro-dominicana na cidade.

Na prática diária, a placa turística recém instalada destaca o papel do antigo governador espanhol na edificação, mas omite a figura de Micaela. Nuñez propõe que o relato inclua explicitamente a heroína afrodescendente, para reconhecer a contribuição africana na criação de instituições de saúde no país.

Visibilidade interrompida

A jornalista percorre a cidade com visitas organizadas pela universidade e por grupos ativistas, destacando a herança africana que persiste em comunidades locais. O objetivo é ampliar o entendimento sobre a presença negra desde os primórdios da colonia britânica, muito antes da iluminação de outros períodos históricos.

O roteiro inclui Boca de Nigua, 30 de outubro de 1796, onde ocorreu uma das maiores revoltas de escravizados na parte espanhola da ilha. Segundo o historiador Dario Solano, a revolta tinha dimensão política, buscando abolir a escravidão e criar um governo que refletisse a diversidade étnica existente.

Ana María, líder da insurreição, figura entre os nomes citados como rainha dos escravizados libertos. A ação envolveu tomada de bens e incêndio em plantações, marcando um marco significativo na resistência escrava da região.

Conhecimento e transformações

Como parte do esforço de reconhecimento, Solano coordena o Festival do Cimarronaje em Boca de Nigua, mantendo viva a memória das comunidades africanas. A proposta é que o local seja apresentado como candidato a Patrimônio Mundial pela Unesco, fortalecendo o Dia da Africanidade no país.

Em Villa Mella, o foco recai sobre Los Morenos de Villa Mella, uma fraternidade fundada por africanos trazidos no século XVI. O grupo preserva tradições de drumming, bem como religiões sincréticas, perpetuando uma expressão musical originária do continente africano.

A cidade permanece marcada pela coexistência de heranças: o legado espanhol, a memória africana e as comunidades afro-dominicanas que mantêm vivas tradições musicais, religiosas e culturais.

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