- O Acampamento Terra Livre, em Brasília, reserva espaço para artesãos indígenas de várias regiões apresentarem suas obras e demonstrar cultura.
- A arte indígena, como pintura corporal com jenipapo e trabalhos de madeira, é vista como forma de resistência e de visibilidade de saberes tradicionais.
- Artesãos de aldeias como Afukuri, Utawana e Kalapalo participam, com produtos que também chegam às redes sociais após o retorno às comunidades.
- Peças demoradas para ficar prontas — muitas vezes mais de dois meses — podem chegar a mais de R$ 3 mil, refletindo o tempo de produção e o cuidado nos acabamentos.
- Os artistas mencionam desafios externos às comunidades, incluindo invasões de não indígenas, garimpos próximos, poluição das águas e o transporte até as comunidades, ressaltando a importância da demarcação de terras.
Em Brasília, artesãos indígenas ocupam o Acampamento Terra Livre com expressões que vão além da estética. A pintura corporal feita com tinta de jenipapo, técnica aprendida na família, ganha espaço entre centenas de artesãos de diversas etnias que participam do ATL para cobrar demarcação de terras e políticas públicas.
O evento reúne mais de 6 mil pessoas das cinco regiões do país. O objetivo central é ampliar a visibilidade de saberes tradicionais e de um modo de vida pautado pela relação com o meio ambiente, além de apresentar produtos artesanais aos visitantes.
Expressões em evidência
Nhak Krere Xikrin, 26 anos, usa tinta preta de jenipapo para criar desenhos no corpo. Ela chegou ao ATL recentemente e, apesar de ter dificuldade com o português, já oferece mais de 200 possibilidades de figuras a interessados. Nhak vive na Aldeia ô-ôdja, no sudeste do Pará, e aprendeu com a mãe e a avó.
Aldeias de todo o país exibem trabalhos que vão desde a pintura até artesanato em madeira, fibras e fibras naturais, como as esteiras de buriti. A proximidade das comunidades com fazendeiros aumenta a demanda por recursos alternativos de sustento, como o artesanato, para manter as famílias.
Sustento e território
Geraldo Kuikoro, 40 anos, lidera uma aldeia com 88 famílias. Ele afirma que o artesanato tem garantido renda em dias em que a produção agrícola é afetada pela presença de fazendeiros próximos. A produção inclui peças de madeira, talhas e adornos com conchas, que refletem tradições locais.
Entre os artesãos presentes, Ontxa Mehinako, 35, da Aldeia Utawana, destaca que a maior parte da comunidade se identifica como artista. Ele esculpe desde os 18 anos e afirma que a arte conta a história do povo, com objetos que representam animais da região, como tamanduá e arara.
Preços e design
Jaqueline Kalapalo, 26, vive no Alto Xingu, MT, em uma aldeia de 52 famílias. Em sua barraca, ela comercializa brincos e colares de caramujo, destacando o ciclo de vida como tema central. Mazinho Naruvôtu, 54, exibe peças em madeira de sucupira com animais como gaviões, considerados por ele um “cacique” da natureza. Peças elaboradas demoram mais de dois meses e chegam a custar mais de R$ 3 mil.
Raira Kamayurá, 22, vende braceletes e pulseiras com linhas coloridas. Ela aponta que as peças têm símbolos de proteção ambiental e celebra a receptividade de compradores não indígenas. A jovem também ressalta dificuldades para a aldeia, com garimpeiros próximos e poluição de rios.
Desafios de convivência e logística
Para chegar a Brasília, representantes kamayurá percorrem quase uma hora de barco até a estrada. A comunidade relata impactos de garimpo e mudanças climáticas que afetam a mandioca, principal alimento tradicional. Em Jab, a produção agrícola tem mostrado atraso para o plantio, com chuvas ocorrendo em meses diferentes do passado.
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