- Em 2024, o julgamento de Dominique Pelicot evidenciou o uso de fóruns para recrutar homens que estupraram a esposa drogada; a rede por trás do crime não desapareceu mesmo com o fechamento do site.
- Uma investigação da CNN Internacional revelou um esquema estruturado de abuso sexual facilitado por drogas, com mais de vinte mil vídeos sob a marca “sleep” e termos ligados a desmaio.
- A repórter Saskya Vandoorne se infiltrou em grupos do Telegram, criando uma persona masculina para entender como os homens agem e por que compartilham conteúdos.
- A equipe da CNN, com advogados e checadores, manteve limites éticos e entregou as descobertas à polícia; um homem polonês foi identificado e preso na Polônia.
- A reportagem gerou debates públicos, pedidos de leis mais rígidas, e destacou que a luta contra essa violência exige participação de homens, autoridades e serviços de saúde, não apenas das sobreviventes.
A repórter Saskya Vandoorne revelou os bastidores de uma investigação que expôs o uso de drogas para facilitar abusos sexuais. Em entrevista à Marie Claire, ela descreve meses de infiltração em fóruns e grupos de mensagens para entender o funcionamento dessa prática.
A pauta ganhou destaque em 2024, com o julgamento de Dominique Pelicot na França. Pelicot recrutou mais de 70 homens que estuparam Gisèle Pelcot, enquanto ela estava drogada. Mesmo com o site derrubado, a rede de abuso continua ativa.
A investigação da CNN Internacional, publicada em março, aponta um esquema estruturado de violência facilitada por drogas, operando de forma pública. Mais de 20 mil vídeos com a tag sleep foram identificados, com relatos de “checagem ocular” e uso de substâncias.
Bastidores da apuração
Saskya Vandoorne, chefe do escritório da CNN em Paris, passou meses em busca de informações ao se infiltrar em grupos do Telegram sem expor conteúdos ilícitos. A equipe utilizou uma persona masculina para entrevistar os membros e evitar incentivar crimes.
Os jornalistas visitaram sites como Motherless para mapear ligações com grupos privados no Telegram. Segundo a entrevista, milhares de homens em diversas partes do mundo trocavam dicas para drogar e agredir, compartilhando provas de crimes.
O método incluiu debates éticos com advogados, checadores e a equipe de padrões. O objetivo era manter o papel de jornalista, sem compartilhar conteúdos gravados ou incentivar condutas criminosas.
Identificação de casos
Foi necessário confirmar a identidade de um homem polonês envolvido. A equipe viajou à Polônia para verificar a veracidade das declarações e evitar anonimato. Após a confirmação, as descobertas foram encaminhadas à polícia galesa, que prendeu o suspeito.
A vítima Gisèle Pelcot não tinha consciência do crime em curso, o que evidencia a gravidade do processo de infiltração e verificação. A prisão ocorreu rapidamente após a comunicação entre a equipe e autoridades.
Impacto e contexto
A reportagem provocou mudanças, com debates sobre leis mais rígidas, petitionções para banir sites semelhantes e reabertura de investigações na França. Profissionais de saúde e policiamento foram informados sobre a necessidade de atendimento mais cuidadoso às vítimas.
O estudo também aponta que a pornografia não implica automaticamente violência, mas reforça a urgência de denunciar abusos. A matéria sugere que a educação sobre consentimento deve ser ampliada entre homens e mulheres.
Considerações finais
A jornalista destaca a importância de compreender o contexto emocional que envolve as vítimas, muitas vezes próximas de quem as agride. O trabalho evidencia que a luta contra essa violência não depende apenas das mulheres, mas de uma coalizão ampla entre sociedade, polícia e judiciário.
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