- Julio Le Parc morreu aos 97 anos, poucos meses antes da abertura da retrospectiva na Tate Modern, marcada para o dia 11.
- Pioneiro da arte cinética, ele cuestionou quem tem o direito de olhar e enfatizou as respostas do público sobre as instituições.
- Em 1965 lançou a série Óculos para uma Outra Visão, com doze modelos que distorciam a imagem e revelavam que olhar é uma experiência.
- Cofundador do Grav (Grupo de Pesquisa em Artes Visuais) no Marais, manteve o foco no espectador em vez do gênio individual.
- Também foi militante político, participou de ações em 1968 e defendeu obras que questionavam regimes, chegando a colocar o público como parte da obra.
Julio Le Parc, pioneiro da arte cinética, morreu aos 97 anos em Paris, 30 de maio. A Tate Modern abre hoje uma grande retrospectiva dele, preparada ao longo de anos, pouco antes da partida do artista. A mostra celebra o legado de quem transformou a relação do olhar com a obra.
O reencontro com o público foi central na sua prática. Ele questionava quem tem o direito de olhar e valorizava as respostas do público mais que as avaliações de museus. Em vida, recusou rótulos e preferiu ser um experimentador definido pelo olhar envolvido na obra.
Nascido em Palmira, Mendoza, em 1928, Le Parc deixou a Argentina ainda jovem e viveu parte da vida em Paris. Com o Grav, grupo de pesquisa que integrou, buscou dissolver a figura do artista e colocar o espectador no centro da experiência estética.
Trajetória e método
Em 1965, criou os Óculos para uma Outra Visão, com lentes recortadas e prismas que distorciam a imagem. Não eram acessórios, mas instrumentos para impedir que o olho recebesse a imagem de frente, revelando que olhar é uma operação.
Entre 1960 e 1966, desenvolveu séries de luz e espelhos que transformavam o espaço em arena sensorial. A obra ganhava corpo apenas quando o visitante se movia, tornando-se parte ativa do experimento óptico.
Na 33ª Bienal de Veneza, Le Parc conquistou o Grande Prêmio de Pintura com o conjunto que incluía os óculos. Esse momento ilustra a tensão entre o prêmio e a proposta de anonimato do coletivo Grav.
Legado e impacto
A prática de Le Parc enfatizava a participação do público como condição da obra. Em maio de 1968, integrou o Ateliê Popular e enfrentou expulsões políticas, retornando após revogação da medida. Em 1972, assinou a série A Tortura, sobre ditaduras latino-americanas.
Doou Esfera Azul ao Centro Cultural Kirchner, em Buenos Aires, condicionando sua permanência a uma votação pública. Cerca de 4.500 pessoas participaram e 95% aprovaram a obra. A atitude reforça o princípio da democracia da percepção.
Com retrospectivas importantes em Paris (2013) e Miami, o artista consolidou uma linguagem que une espelhos, motores e luz. A abertura da Tate Modern propõe uma experiência de circuito aberto, onde o olho navega entre reflexos.
Observações finais
A exposição na Tate Modern, prevista para abrir, reúne mais de 60 obras criadas ao longo de décadas. O laboratório de Le Parc permanece: o observador ainda é convidado a construir sentido, não apenas receber a imagem pronta.
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