- A 25 anos da morte de Milton Santos, o acervo da USP, no Instituto de Estudos Brasileiros, reúne cerca de 60 mil itens que revelam novas faces do pensador.
- Pesquisas recentes passam a investigar também a relação de Santos com a política, o movimento negro, as periferias e o período em que viveu em países africanos.
- O estudo aponta que ele foi um dos primeiros brasileiros a ler e comentar a obra de Frantz Fanon, além de tratar de questões raciais já em seus primeiros livros, como em O Povoamento da Bahia.
- Entre as novas leituras, destacam-se os textos sobre a África, compilados a partir de viagens na década de cinquenta, que ganham relevância para entender a militância do pensador.
- Pesquisadores ressaltam que Milton Santos não foi apenas um teórico da periferia, mas também uma referência prática para movimentos sociais, como MST e MTST, com ideias sobre cidadania e exclusão.
O acervo de Milton Santos na USP continua a revelar facetas inéditas do pensador negro, 25 anos após sua morte. Pesquisas recentes no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), onde fica o arquivo com cerca de 60 mil itens, ampliam o entendimento sobre o geógrafo. A reavaliação acontece no momento em que cotas raciais passaram a influenciar novos debates acadêmicos no Brasil.
Especialistas afirmam que as pesquisas ampliam o olhar sobre a atuação de Santos além da geografia, incluindo temas políticos, movimento negro, periferias e experiências na África. O estudo destaca ainda a leitura de Fanon como marco no pensamento brasileiro negro, algo presente em obras iniciais do autor.
Maurício Costa, professor do IFSP e pesquisador de Milton Santos, aponta que o acervo permite perceber uma militância do pensador não apenas no sentido tradicional, mas como intervenção intelectual no movimento negro. Segundo Costa, as viagens à África e a atuação na Bahia ganham novo significado.
As entrevistas e análises destacam que a obra de Santos, após o exílio nos anos 1970, passou a incorporar perspectivas políticas mais explícitas. Um exemplo citado é o livro Espaço do Cidadão, que dialoga com a Constituição de 1988 e discute território e desenho político do Brasil.
Movimento Negro
O material do acervo desmonta o mito de que Santos não participou do movimento negro. Pesquisadores indicam que o pensador contribuiu com ideias sobre a exclusão do negro, tanto no Brasil quanto em outros contextos, a partir de debates e experiências práticas.
Regina Lucia Santos, ex-aluna e atual coordenadora do MNU, ressalta que os conceitos de Milton já chegavam às comunidades periféricas na prática, mesmo que nem sempre pela via do movimento negro formal. As redes de solidariedade e a criatividade para enfrentar carências aparecem entrelaçadas no cotidiano.
Ela lembra que os estudos sobre território, periferia e cidadania, presentes em obras como Espaço do Cidadão, ajudam a entender a atuação de Milton na vida social e política brasileira. O legado é reconhecido por movimentos sociais como MST e MTST, que o citam em ações no território.
Milton na periferia
Regina destaca a conexão entre as ideias de Santos e as lutas diárias das comunidades periféricas. A militância dele é associada a intervenções que ajudam a mapear e enfrentar a exclusão, especialmente no contexto brasileiro e na diáspora africana.
A influência de Santos para as estratégias de organização comunitária é apontada como núcleo de um pensamento que relaciona território, redes de apoio mútuo e cidadania. As contribuições permanecem referências para propostas de políticas públicas e ações coletivas.
Quem foi Milton Santos?
Geógrafo, escritor e professor, Milton Santos nasceu em 3 de maio de 1926, na Bahia. Formou-se na UFBA, doutorou-se na França e atuou na UFRJ e na USP. Exilado, lecionou na Europa, África e América Latina, devolvendo ao Brasil uma leitura crítica do espaço geográfico.
Sua obra reúne economia, política e sociedade, desafiando o racismo institucional. O pesquisador faleceu em 2001, aos 75 anos, mas as linhas de investigação sobre urbanização, periferias e estruturas de poder continuam a inspirar estudos no Brasil e no exterior.
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