- O rio Sirsiya, que nasce no distrito de Bara, no Nepal, recebe despejos industriais e esgoto sem tratamento, tornando-se uma massa negra que contamina água e ar na região de Birgunj.
- Atualmente, mais de sessenta fábricas, em sua maioria do corredor industrial Bara-Parsa, despejam resíduos diretamente no rio; o mapa de poluição era de quarenta e sete indústrias em 2010, subindo para mais de sessenta até 2026.
- A poluição afeta não apenas Nepal, mas também a Índia, onde a água contaminada chega a Raxaul, prejudicando aquíferos locais e plantações, com moradores relatando mau cheiro e problemas de saúde.
- Autoridades Nepalinas discutem a construção de uma planta de tratamento de efluentes comum para o complexo Birgunj-Pathlaiya, estimada em 2,5 bilhões de rúpias nepalesas, com estudo apontando 122 indústrias despejando direta ou indiretamente no rio.
- Movimentos locais de proteção ao rio e ações judiciais destacam promessas não cumpridas; comunidades, inclusive durante o festival Chhath, continuam a perder práticas religiosas e culturais associadas ao Sirsiya.
O rio Sirsiya, que nasce no distrito de Bara, no sul do Nepal, tornou-se uma mancha de poluição que se estende até a Índia. O esgoto industrial e as águas residuais de fábricas da região Bara-Parsa chegam ao rio, transformando-o em água escura e perfumada a princípio com cheiro de enxofre. Moradores e trabalhadores dizem que o curso de água deixou de ser um recurso de vida para se tornar um problema de saúde pública.
A cidade industrial de Birgunj, fronteira com a Índia, abriga cerca de 1.200 fábricas, grandes e pequenas, ligadas ao corredor Bara-Parsa. Registros apontam que, em 2010, 47 grandes unidades despejavam resíduos diretamente no rio; estimativas de 2026 sugerem mais de 60 indústrias despejando sem tratamento adequado. A poluição atinge também ecossistemas aquáticos e comunidades locais.
Binod Gupta, químico ambiental de Birgunj, explica que o Sirsiya recebe uma mistura complexa de poluentes: cromo de curtumes, ácido sulfúrico de indústrias químicas e toxinas de papel, com até 80% do volume durante a estação seca composto por efluentes industriais. Em alguns períodos, a água que flui pelo rio é majoritariamente resíduos industriais.
O impacto ecológico é severo. Pesquisadores de Bihar University mostraram que a introdução de resíduos industriais reduz drasticamente comunidades de zooplâncton, fundamento de ecossistemas aquáticos, transformando o Sirsiya em um deserto biológico. Localmente, as populações hindus que tradicionalmente trabalham e rezam às margens relatam queda na participação em festivais como o Chhath.
Desdobramentos legais e institucionais não obtêm resultados práticos. Um processo movido por Surendra Kurmi, que lidera a campanha Sarisawa River, questiona Birgunj Metropolitan City e 10 grandes fábricas. Embora a Justiça tenha ordenado medidas efetivas em 2019, até hoje pouco mudou, segundo o advogado.
Desdobramentos transfronteiriços
Ao atravessar a fronteira para a Índia, o poluente ganha contorno diplomático. Em Raxaul, a poluição contamina águas subterrâneas e compromete a irrigação de lavouras, com moradores relatando odor forte e dificuldade para dormir com as janelas abertas. A administração indiana aprovou um projeto de gestão de esgotos de 470 milhões de rupias para tratar as próprias águas residuais de Raxaul; no entanto, reconhece-se que a solução depende de conter o despejo vindo de Nepal.
Medidas e perspectivas
Em Nepal, há estimativas de um sistema de tratamento de efluentes para a região Birgunj-Pathlaiya, com três unidades previstas, capazes de processar cerca de 13,4 milhões de litros por dia. O custo é estimado em aproximadamente 2,5 bilhões de rúpias nepalesas, ainda sem alocação no orçamento federal. Faltam política de fiscalização integrada e infraestrutura compartilhada para gerenciar os resíduos industriais de forma sustentável.
A pressão popular persiste. Jovens voluntários do movimento Save Sirsiya promovem ações para chamar atenção estatal, entregando água poluída a portas de órgãos públicos e da Câmara de Comércio de Birgunj. Enquanto as autoridades não avançam, a população convive com a água escura que acompanha casas, templos e campos, tanto no Nepal quanto na Índia, além de manter uma vigilância constante sobre promessas não cumpridas.
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