- Uma série de acidentes nas ferrovias espanholas, em uma semana, acende o debate sobre se o investimento em manutenção acompanha a alta demanda de passageiros.
- Em 2024, quase 40 milhões de passageiros utilizaram o trem de alta velocidade, elevando o uso total da rede a 549 milhões de viagens.
- O investimento em manutenção fica abaixo de países europeus, com o foco maior em ampliação da infraestrutura. Aproximadamente 16% do orçamento foi destinado a manutenção, renovação e upgrades.
- A Espanha gastou em média 1,5 bilhão de euros por ano entre 2018 e 2022 na rede de alta velocidade, mas a maior parte foi para novas obras, não para manutenção.
- A pressão pela manutenção aumenta: há chamada de greve, dados apontam deterioração crescente das linhas e debate sobre aumentar o orçamento por quilômetro.
O que aconteceu: uma série de acidentes ferroviários em uma semana elevou a cobrança por manutenção da malha de alta velocidade espanhola. No domingo anterior, um choque entre trens na região gradual do sul de Andaluzia deixou dezenas de mortos; dois dias depois, um caminhão de contenção caiu na via perto de Barcelona, provocando a queda de um trem de passageiros. Um segundo trem também saiu da linha perto de Barcelona após atravessar uma pedra na linha, e uma quarta colisão envolvendo uma grua em sudeste de Espanha deixou seis feridos. Os incidentes colocam em evidência a relação entre demanda crescente e condições de infraestrutura.
Quem está envolvido: autoridades ferroviárias espanholas, o operador de infraestrutura Adif, o órgão de investigação CIAF, o Ministério dos Transportes, a associação de engenheiros e o sindicato dos maquinistas SEMAF. A CIAF aponta indícios de falha na joint de trilho na investigação preliminar de um dos acidentes, enquanto o governo compara o ritmo de investimento com padrões europeus. O ministro dos Transportes reconheceu que pode haver debate sobre o orçamento, desde que separado do acidente específico.
Quando e onde: os acontecimentos ocorreram entre domingo passado e esta semana na rede de alta velocidade da Espanha, com ocorrências em Andaluzia, região de Barcelona e área sudeste do país. As circunstâncias envolvem condições do trilho, desgaste e possíveis falhas de inspeção, segundo laudos iniciais e relatos oficiais. A magnitude dos incidentes aumentou a demanda por transparência sobre planos de melhoria.
Por que acontece: dados oficiais apontam aumento no desgaste de trilhos e na quantidade de ocorrências, com deterioração e quebras de trilhos crescendo nos últimos anos. A tendência vem acompanhada de maior investimento em infraestrutura, enquanto o orçamento voltado à manutenção permanece abaixo de pares europeus. Especialistas destacam que o sistema de alta velocidade espanhol enfrenta maior esforço de uso devido à expansão acelerada.
Investimento em manutenção em debate
A Comissão Europeia mostra que, entre as grandes potências, a Espanha reserva menor parcela de orçamento à manutenção em relação à construção de novas linhas. Em média, 16% do gasto fica com manutenção, renovação e upgrades, frente a 34% a 39% em França, Alemanha e Itália. A distância entre investimento e necessidade acende o debate público sobre prioridades.
Para especialistas, o custo de manter a rede é superior ao de apenas ampliar infraestrutura. O presidente de uma associação de engenheiros locais aponta a necessidade de elevar o gasto por quilômetro de 110 mil euros para cerca de 150 mil euros. O objetivo é ampliar não apenas a capacidade, mas também a confiabilidade da rede.
O governo afirma ter aumentado investimentos em infraestrutura desde 2018, com triplicação de gastos totais e crescimento de 58% no orçamento por quilômetro dedicado à manutenção desde então. Contudo, analisadores independentes destacam que o nível de investimento permanece abaixo dos registros anteriores à crise financeira iniciada em 2008.
Semaf, o principal sindicato de maquinistas, convocou uma greve de três dias para cobrar garantias de segurança e de manutenção, citando deterioração constante do sistema ferroviário. A tensão entre defesa de manutenção e expansão permanece como eixo das discussões públicas.
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