No último domingo (22) o narcotraficante Nemesio Oseguera, conhecido como El Mencho, morreu após uma operação do Exército mexicano. Ele comandava o Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), considerado um dos maiores e mais violentos grupos criminosos do país. Além dele, outros seis integrantes do cartel morreram na operação realizada em Tapalpa, no estado de Jalisco, […]
No último domingo (22) o narcotraficante Nemesio Oseguera, conhecido como El Mencho, morreu após uma operação do Exército mexicano. Ele comandava o Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), considerado um dos maiores e mais violentos grupos criminosos do país.
Além dele, outros seis integrantes do cartel morreram na operação realizada em Tapalpa, no estado de Jalisco, no centro-oeste do país. Três militares ficaram feridos, e outros dois suspeitos foram presos com um lança-mísseis capazes de derrubar aeronaves.
El Mencho era prioridade na lista de procurados da Administração de Controle de Drogas dos Estados Unidos, a DEA, que oferecia recompensas de até US$15 milhões (aproximadamente R$77,6 milhões) por informações que levassem à sua localização. O cartel comandado pelo narcotraficante também entrou na lista de organizações terroristas designadas pelos EUA.
Após sua morte, uma onda de violência começou no país. Cerca de 250 vias foram bloqueadas e o Aeroporto Internacional de Guadalajara foi alvo de um ataque que provocou pânico entre os passageiros. Ao menos dez estados registraram paralisações; aulas foram suspensas e autoridades convocaram reuniões emergenciais.
Quem foi El Mencho?
Nemesio Oseguera Cervantes nasceu em 1966, no estado de Michoacán, em uma área rural marcada há décadas por atividades criminosas. Na juventude, migrou para os Estados Unidos nos anos 1980 e, no início dos anos 1990, foi condenado em um tribunal federal da Califórnia por distribuir heroína, cumpriu quase três anos de prisão e, depois, foi deportado.
Ao voltar para o México, ele entrou para uma polícia local, mas logo retornou ao crime ao se tornar um dos homens de confiança do narcotraficante Armando Valencia Cornelio, conhecido como El Maradona, então chefe do cartel Los Valencia.
Esse foi o caminho de entrada dele no mundo dos cartéis, onde passou pelo chamado Cartel do Milênio, que atuava como aliado e suporte de grupos maiores, como o Cartel de Sinaloa. Naquele período, o crime organizado no oeste do México passava por uma reestruturação após prisões e mortes de líderes.
Sua trajatória e a de seu cartel seguiram uma lógica comum no narcotráfico mexicano: grupos regionais se tornam braços de cartéis maiores, até que disputas internas de liderança abrem espaço para rupturas, independência e uma guerra por rotas e território.
O CJNG nasceu de uma dessas rupturas. Remanescente do Cartel do Milênio, o grupo se expandiu rapidamente para outros estados, principalmente por conta da violência e corrupção. El Mencho fundou a organização ao lado de um grupo local ligado à lavagem de dinheiro, conectado ao núcleo financeiro conhecido como Los Cuinis.
A reputação de El Mencho também foi construída com confrontos diretos contra forças de segurança e demonstrações públicas de força. Entre os prjncipais episódios que reforçam isso estão a derrubada de um helicóptero militar em 2015 e a tentativa de assassinato contra o então chefe de polícia da Cidade do México, em 2020.
El Mencho manteve um perfil mais fechado do que outros chefes de cartéis. Ainda assim, o CJNG recorreu à intimidação e manipulação para ganhar controle territorial e espalhar medo, o que facilitou o avanço sobre regiões com polícias locais mais frágeis.
Nos EUA, Oseguera virou alvo de prioridade máxima. Em abril de 2015, o Departamento do Tesouro sancionou o CJNG e o próprio líder com base na Lei Kingpin, que autoriza o bloqueio de ativos e a aplicação de sanções contra traficantes internacionais e suas organizações. A medida resultou no congelamento de bens sob jurisdição americana e na proibição de transações por pessoas e empresas dos Estados Unidos.
Ele ganhou prioridade das autoridades americanas a partir de 2017, quando outro grande chefe do narcotráfico foi preso e extraditado para os Estados Unidos. Joaquín “El Chapo” Guzmán liderava o Cartel de Sinaloa, também conhecido como Alianza de Sangre.
A história e trajetória do CJNG
O Cartel Jalisco Nueva Generación é uma das maiores organizações criminosas do México e uma das principais redes de tráfico que abastecem mercados internacionais, com foco em drogas sintéticas.
O grupo é apontado como um dos mais poderosos e violentos do país e opera com uma estrutura hierárquica, além de se expandir através de afiliação, modelo esse que ajuda a explicar seu crescimento acelerado para além de Jalisco.
O cartel surgiu a partir de uma ruptura do Cartel do Milênio, então aliado do Cartel de Sinaloa. O principal marco desse processo veio em 2009, quando a captura de Óscar Orlando Nava Valencia, conhecido como “El Lobo”, uma das lideranças do Cartel do Milênio, abriu uma disputa interna e redesenhou o controle de rotas no oeste do México.
No início da década de 2010, o grupo passou a ser associado ao rótulo “Mata Zetas”, em referência à guerra contra Los Zetas, outro cartel mexicano, e à tentativa de se vender como uma “força de limpeza” diante dos rivais.
O grande salto do CJNG foi transformar um grupo regional em um cartel de escala nacional. Dados do Armed Conflict Location and Event Data Project, o ACLED, indicam que, sob a liderança de El Mencho, a organização deixou de atuar apenas como braço de aliados e passou a operar de forma independente, rivalizando inclusive com antigos parceiros.
A virada de chave do CJNG passa por dois fatores centrais: o controle de territórios estratégicos no Pacífico, como portos e rotas que conectam a costa à fronteira, e a escala de produção e tráfico de drogas sintéticas. Além disso, o grupo diversificou suas fontes de renda, com atividades como extorsão, sequestro, roubo de combustível, mineração e outras.
Parte da força do CJNG se explica pela conexão com a organização de lavagem de dinheiro conhecida como Los Cuinis, ligada à família González Valencia.
Os vínculos entre esses núcleos eram familiares e também comerciais, e os Cuinis se tornaram uma peça fundamental no financiamento do cartel.
O que tende a vir após a morte de El Mencho, com base no histórico de outros cartéis, combina demonstrações de força e escalada da violência, além de disputas internas pela ascensão dentro do próprio grupo e uma reorganização de alianças com outras facções.
Entre na conversa da comunidade