- A ONU afirma que o inverno atual é o pior desde o início da invasão, com necessidades humanitárias significativas perto da linha de frente de 1.700 quilômetros e mais de 3.000 edifícios em Kiev sem fornecimentos; cerca de meio milhão de pessoas vulneráveis precisa de apoio básico como comida, água e aquecimento.
- A instituição alerta que a paz sem justiça não é suficiente e defende que responsabilizar crimes de guerra é essencial para a reconciliação e a segurança a longo prazo.
- O recuo de financiamento, especialmente dos Estados Unidos, afeta milhares de organizações não governamentais no país, incluindo aquelas que atendem violência de gênero e minorias; alguns meios de comunicação independentes também são impactados.
- Em termos de recuperação, a ONU destaca que será preciso investir em infraestrutura, habitação estável e serviços básicos, com participação do setor privado; enquanto a guerra persiste, a reconstrução só ocorrerá de forma limitada.
- Um dos grandes desafios é a exaustão da população: moradores próximos à linha de frente estão cansados e desejam o fim do conflito, mas não a qualquer preço, mantendo a necessidade de manter auxílio e proteção social.
Matthias Schmale, alemão que dirige o escritório da ONU na Ucrânia, concedeu entrevista a EL PAÍS em Kiev. O chefe da agência afirmou que o país está no quinto ano de conflito e enfrenta um inverno particularmente duro, com a necessidade de manter a assistência humanitária.
Ele destacou vulneráveis próximos à linha de frente, com cerca de meio milhão de pessoas precisando de apoio. A distância de 1.700 km da frente amplia desafios logísticos, especialmente para quem fica ou é evacuado em períodos de frio extremo.
A situação em Kiev ilustra o cenário. Mais de 3.000 edifícios residenciais ficaram sem energia no restante do inverno, e comunidades inteiras enfrentam cortes de luz e aquecimento, elevando o risco para idosos e pessoas com mobilidade reduzida.
Condições humanitárias e moral da população
Schmale disse estar impressionado pela resiliência, mas enfatizou o cansaço generalizado após quatro anos de guerra e um inverno severo. Muitos ucranianos querem que o conflito termine, mas sem abrir mão de justiça.
Sobre as mortes de civis em 2025, o diplomata apontou o ritmo acelerado de desenvolvimento tecnológico, com drones, que aumenta a capacidade de ataques. O conflito é descrito como estratégico, com disputas de território para fortalecer a posição em negociações.
A retração da ajuda financeira externa também impacta a atuação da ONU. Organizações locais, incluindo aquelas que atendem violência de gênero e minorias, sofrem pressões, e a imprensa independente tem enfrentado cortes.
Apoio humano e recuperação
Apesar disso, a ONU afirma manter o atendimento básico: alimento, água, roupas de abrigo e aquecimento. A saúde mental aparece como uma área de risco, com efeitos invisíveis que exigem atenção contínua.
Para os deslocados internos, estimados em 3,7 milhões, o principal desafio é conseguir moradia estável e renda própria. A reconstrução dependerá de investimento público, participação do setor privado e melhoria gradual dos serviços estatais.
O portavoz da ONU também comentou sobre a perspectiva de um dia depois do conflito. A recuperação deverá levar anos, com foco em infraestrutura, transporte e segurança. A cooperação entre governo e setor privado será fundamental.
Justiça, ordem mundial e continuidade da agenda
Schmale afirmou que não haverá paz sem justiça, citando investigações de crimes de guerra. Documentação e responsabilização são cruciais para a reconstrução institucional.
Quanto ao papel da ONU, o diplomata ressaltou a necessidade de reformas e de manter o tema de Ucrânia na agenda global, mesmo diante de outras crises. A ONU busca manter o apoio humanitário e a coordenação com parceiros internacionais.
Entre na conversa da comunidade