- Em Santa Marta, aconteceu a Primeira Conferência sobre a Transição para Fora dos Combustíveis Fósseis, com participação da sociedade civil e mecanismos paralelos à ONU.
- Dois documentos surgiram a partir das mesmas contribuições: a Síntese Oficial das ONGs (colaborada por governos da Colômbia e da Holanda) e a Declaração dos Povos, com propostas bem distintas.
- A síntese oficial omitiu temas como desinvestimento de subsídios, datas para eliminar fósseis, falsas soluções e conflitos militares ligados à dependência de petróleo e gás.
- A Declaração dos Povos manteve firme o foco da sociedade civil, reconhecendo a importância dos sistemas alimentares industriais, a pecuária como grande fonte de metano e a necessidade de eliminar subsídios fósseis, além de considerar os modelos pecuários “regenerativos” como falsas soluções.
- O desencontro entre os caminhos oficiais e paralelos aponta para um impasse entre interesses institucionais e a pressão da sociedade civil, com questionamentos sobre até quando os governos ouvirão as demandas reais para uma transição eficaz.
No último fim de semana, ocorreu em Santa Marta a Primeira Conferência sobre a Transição para Fora dos Combustíveis Fósseis. O evento reuniu atores da sociedade civil para discutir caminhos de descolamento gradual dos combustíveis fósseis, em complemento aos mecanismos oficiais da ONU. A iniciativa surge após a COP30 em Belém, quando falharam compromissos vinculantes.
Os organizadores apresentaram dois caminhos distintos a partir de contribuições recebidas: uma síntese oficial das ONGs e uma Declaração dos Povos, construída pela sociedade civil de forma autônoma. A disparidade entre os textos ganhou destaque na cobertura após o encerramento parcial da conferência.
Segundo a cobertura inicial, a síntese oficial, elaborada pelo governo colombiano em parceria com a Holanda, reduz prioridades da sociedade civil. Entre elas, a retirada gradual de subsídios públicos, datas para eliminação de fósseis, identificação de falsas soluções e reconhecimento de conflitos militares que sustentam a dependência de petróleo e gás.
Em contrapartida, a Declaração dos Povos preserva as demandas sem concessões. Ela mantém a análise sistêmica, ressalta a importância da transição energética sem consumo de insumos fósseis e endossa metas ambiciosas para repensar o modelo agrícola atual.
O debate ganha relevância ao enfatizar o papel dos sistemas alimentares na transição. Organizações de base defendem redirecionar subsídios da agricultura intensiva para a agroecologia de base vegetal. A visão oficial não aborda explicitamente as emissões de metano da pecuária nem a agropecuária industrial, deixando o tema de fora do eixo de cooperação internacional.
A Declaração dos Povos aponta para uma ruptura no enquadramento climático global. Ela reconhece a dependência dos sistemas alimentares industriais de combustíveis fósseis, identifica a produção pecuária como principal fonte de metano e propõe o fim de subsídios setoriais, além de classificar modelos pecuários ditos regenerativos como falsas soluções.
Com o andamento da conferência oficial ainda em curso, cresce a dúvida sobre a disposição dos governos participantes em ouvir as propostas da sociedade civil. A cobertura também destaca a influência de interesses corporativos no processo institucional, em contraste com a agenda independente da Declaração dos Povos.
Leandro Franz (Plant Based Treaty Brasil), Nassim Nobari e Chema Hernández Gil (Seed the Commons) contribuíram como líderes e cofundadores na elaboração das respectivas peças discutidas no evento. A conclusão sobre próximos passos ainda depende de desdobramentos oficiais e de novas leituras entre governos e sociedade civil.
Entre na conversa da comunidade