- Sonja Ibermann Cowan, hoje com 102 anos, vive em Melbourne e manteve uma amizade internacional com Deborah Cole, de Berlim, ligada à memória familiares durante a pandemia.
- Stolpersteine (placas de bronze no passeio) em frente à casa de Deborah lembram Taube Ibermann, conhecida como Toni, e Lotte, vítimas do Holocausto; as pedras foram o elo que trouxe a história à vida.
- Sonja nasceu em Berlim em 1923, foi enviada para a Inglaterra aos 16 anos via Kindertransport e, após a Segunda Guerra, morou na Escócia antes de emigrar para a Austrália.
- A história familiar envolve a mãe Toni e a irmã Lotte, bem como a irmã Ursel; a família enfrentou expulsões, perseguições e mudanças de nome devido ao antissemitismo.
- O pesquisador Benjamin Preiss, neto de Sonja, investigou a vida da avó e de familiares, conectando memória pessoal, memória pública e o papel dos Stolpersteine na preservação histórica.
Sonja Ibermann Cowan, hoje com 102 anos, vive em Melbourne e compartilha memórias de uma vida marcada pela perseguição nazista, pela Kindertransport e pela sobrevivência. A história veio à tona pela parceria entre uma jornalista australiana e a neta de Sonja, que mora em Berlim.
O relato começou durante a pandemia, quando o neto Benjamin Preiss, jornalista do Age, iniciou uma investigação sobre a vida da avó e os crimes da família Ibermann. A jornalista em Berlim recebeu a confirmação de que Sonja, irmã de Lotte, ainda estava entre os vivos e abriu-se uma linha de conversas.
As conversas formais ocorreram pela primeira vez em setembro de 2020, por videoconferência. A filha mais velha de Sonja, Lorraine, acompanhou a conversa para proteger a matriarca, que mantinha clareza de memória e humor próprio da antiga Berlin.
O ponto de partida da história são as Stolpersteine, pequenas plaquinhas de cobre instaladas na calçada em frente às últimas residências de vítimas do Holocausto. Em Berlim, duas plaquinhas honram Taube Ibermann e Lotte Ibermann, presentes na vida de Sonja.
Deborah Cole, moradora de Berlim, e Hilmar, seu marido, passaram anos cuidando dos objetos como um gesto de respeito. A história da menina refugiada que chegou à Grã-Bretanha em 1939 ganhou nova vida com o relato de Sonja sobre a familia e os tempos de guerra.
Sonja nasceu em 1923, em Berlim, filha de judeus poloneses. O pai, Leo Ibermann, faleceu jovem, e a mãe Toni trabalhou como costureira para sustentar a família. A filha mais velha Lotte ajudava nos cuidados com as irmãs do bairro.
A ascensão de Hitler trouxe a expulsão de crianças judias das escolas. A menina Sonja transferiu-se para uma escola judaica mantida na sinagoga de Rykestraße, em Prenzlauer Berg, onde encontrou apoio da comunidade.
Quando a violência cresceu, Toni planejou a saída para salvar as filhas. Em 1939, Sonja ingressou na Kindertransport para a Inglaterra, aos 16 anos, idade máxima para a evacuação. Ursel já deixara o país para a Grã-Bretanha no mesmo ano.
Na Inglaterra, Sonja trabalhou como criada antes de servir no Exército Britânico, onde aprendeu inglês. O destino fértil de amizades moldou sua vida, que incluiu casamento com Ralph Cohen, após conhecer o marido na Escócia. A família adotou o sobrenome Cowan ao se mudar para a Austrália.
Ao fim da Segunda Guerra, Sonja se estabeleceu em Glasgow e, mais tarde, mudou-se para Melbourne, onde construiu uma nova vida com os filhos. O receio da violência antissemita permaneceu, ainda que a família tenha seguido adiante.
Em Melbourne, a memória dos Nazistas se tornou menos discutida, mas Sonja comenta que a dor persiste ao ver relatos de campos de concentração. Hoje, as memórias da vida na Alemanha dividem espaço com a convivência na Austrália, onde ainda existem sobreviventes do Holocausto.
A investigação de Benjamin Preiss revelou que Taube e Lotte foram forçadas a trabalhar para a Siemens em Berlim antes da deportação para Łódź. A pesquisa amplia a compreensão sobre o destino da família Ibermann e seu reconhecimento público.
O projeto também envolve a atuação de Aleida Assmann, pesquisadora de memória cultural, que destaca o papel das memórias que residem ao nosso lado, como as Stolpersteine, para manter vivas as histórias. A autora situou a importância desse tipo de memória na prática cotidiana.
Em momento recente, os moradores alemães presentearam a família com uma garrafa de polimento de bronze e uma recorte de jornal sobre as Stolpersteine, como gesto de reconhecimento. A história de Sonja mostra como a memória pode atravessar fronteiras e gerações.
Hoje, Benjamin segue investigando a trajetória da avó, com a coleta de documentos, cartas e fotos que ajudam a compreender a identidade familiar. A família Cowan permanece engajada na preservação de memória, sem juízos ou conclusões, apenas fatos.
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