- O governo de Rodrigo Paz, desde novembro de 2025, enfrenta protestos amplos em La Paz, liderados por camponeses, comunidades indígenas e sindicatos, com demandas que já incluem a saída do presidente.
- Barricadas, conflitos com a polícia e detonações de dinamite marcaram a tensão; apoiadores de Evo Morales fizeram uma marcha de quase duzentos quilômetros em direção à capital.
- Professores, motoristas e comunidades indígenas reivindicam mais recursos, inflação alta e escassez de combustível, enquanto a indústria para e a economia perde cerca de sessenta milhões de dólares por dia.
- A desaceleração do setor de petróleo e gás reduz o peso da Bolívia no cenário regional, afetando acordos comerciais com países vizinhos, inclusive o Brasil.
- O governo tem usado detenções de protestantes ligadas a cartéis, mas isso ampliou o descontentamento; ruptura entre o vice-presidente Edmand Lara e Paz agrava a tomada de decisões.
Desde que Rodrigo Paz assumiu a presidência da Bolívia, em novembro de 2025, o país vive uma crise de protestos que ganhou massa e intensidade. Trabalhadores, comunidades indígenas e grupos políticos exigem mudanças e, em alguns casos, a saída do governo. A continuidade das mobilizações envolve bloqueios, escassez e tensão social.
Em La Paz, barricadas em vias centrais são erguidas por camponeses da Federação Túpac Katari, com vinte frentes ativas. Trabalhadores da COB e membros do movimento indígena Ponchos Rojos reforçam as ações, que já incluem pedidos de aumento salarial, mas passam a cobrar mudanças profundas no governo.
Os bloqueios têm paralisado o transporte e impactado o comércio local. O centro administrativo da capital vive sob pressão, com ruas cheias de sirenes, fumaça e presença policial reforçada. A cada dia, o clima se mantém de alerta e incerteza quanto ao desfecho.
Registros de confrontos entre mineiros e policiais no centro de La Paz despontam com uso de dinamite, segundo testemunhas. Paralelamente, uma marcha de quase 200 km, iniciada por apoiadores do ex-presidente Evo Morales, aproxima-se da capital, ampliando o cenário de instabilidade.
Autoridades afirmam que Morales busca provocar caos para espaço político. Especialistas, porém, veem o movimento como parte de uma fratura social mais complexa, sem um planejamento centralizado. O efeito é uma percepção de governabilidade fragilizada.
Contexto econômico
Descontentamento estruturado cresce a partir de demandas por mais recursos públicos, especialmente na educação e nos transportes. Professores citam inflação comendo reajustes salariais. Motoristas reclamam de combustível caro e irregularidade na entrega.
Grupos indígenas protestam contra alterações territoriais na Amazônia, temendo perder controle sobre áreas tradicionais. Os bloqueios afetam fábricas e negócios, com estimativa de perdas diárias para a indústria em dezenas de milhões de dólares.
A desaceleração do setor de petróleo e gás aparece como componente-chave. Segundo especialistas, o país deixou de atrair investimentos e sofreu mudanças regulatórias imprevisíveis. O enfraquecimento afeta também contratos com parceiros, incluindo o Brasil.
Consequências diplomáticas e políticas
Apesar de diálogos promovidos pelo governo, a resposta de segurança mais firme gerou novas detenções ligadas aos protestos. A repressão, em vez de conter as manifestações, ampliou a adesão de novos setores ao movimento.
A crise expõe fissuras dentro da própria estrutura governamental. O vice-presidente Edmand Lara tem relação tensa com o presidente, o que dificulta decisões rápidas em meio à pressão pública e aos desdobramentos institucionais.
Caso haja saída de Paz, a linha de sucessão envolve Edmand Lara, conforme o que prevê a Constituição. Se ele não puder assumir, o cargo recairia sobre figuras-chave do Parlamento, abrindo caminho para governo provisório e novas eleições.
As mudanças de leadership dependem não apenas do descontentamento popular, mas também da relação entre líderes, que pode acelerar a instabilidade e alterar o funcionamento do Estado. As próximas semanas serão decisivas para o equilíbrio político.
Martín Morales é sócio-diretor da Arko USA.
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