- Choques geopolíticos e a vulnerabilidade de combustíveis fósseis ampliam o foco da transição para a segurança de abastecimento e controle sobre os recursos.
- Mesmo após décadas de investimento, os combustíveis fósseis ainda respondem por cerca de oitenta por cento do uso global de energia, com exportadores concentrados e dependência de importações.
- O mercado de gás natural liquefeito é dominado por três grandes fornecedores — Estados Unidos, Catar e Austrália — e a Rússia mantém operações relevantes, sujeitas a restrições e sanções.
- A União Europeia busca ampliar produção interna e cadeias de suprimentos críticas, reconhecendo a energia renovável como ferramenta de autonomia estratégica além de ser opção climática.
- A energia renovável, descentralizada, oferece maior resiliência, com eletricidade hoje sendo gerada em parte por fontes de baixo carbono; no longo prazo, tecnologias como hidrogênio e combustíveis sintéticos aparecem como caminhos para setores de difícil eletrificação.
A insegurança no abastecimento de energia ganha importância na pauta pública, à medida que choques geopolíticos e a dependência de combustíveis fósseis elevam a percepção de risco. A discussão sobre custos e volatilidade cede espaço para a prioridade de garantir suprimento estável e controlável.
Dados recentes mostram que, mesmo com décadas de investimento, 80% da energia global ainda vem de fósseis. Países exportadores como EUA, Arábia Saudita e Rússia concentram grande parte do petróleo, enquanto o GNL é dominado por EUA, Catar e Austrália. A União Europeia mira reduzir dependência externa.
A Rússia permanece relevante no cenário do gás natural, com restrições crescentes às exportações e novas sanções que afetam capacidades de produção. Ainda assim, o transporte global depende de rotas marítimas estratégicas como Estreito de Ormuz e Canal de Suez, que podem sofrer interrupções em conflitos regionais.
O tema da energia não é apenas econômico. A disponibilidade física e a segurança da infraestrutura de distribuição aparecem como riscos centrais para governos importadores, que enfrentam tensões geopolíticas, disputas comerciais e choques pontuais.
A energia renovável começa a ser vista sob outra ótica: não apenas como solução climática, mas como elemento de segurança energética. Fontes como vento, sol e hidráulica são amplamente distribuídas e, em geral, menos vulneráveis a pontos únicos de falha.
A descentralização da geração renovável fortalece a resiliência. Parques eólicos e usinas solares reduzem dependência de gasodutos ou terminais marítimos, minimizando impactos de interrupções pontuais. A União Europeia incentivo a produção regional e cadeias críticas.
A eletrificação avança, impulsionada pela alta de combustíveis fósseis. Em alguns mercados, veículos elétricos ganham espaço com recordes de venda mensal, acompanhando tendências de Europa, Ásia e África. A eletricidade, porém, já não acompanha integralmente a volatilidade do petróleo.
Atualmente, cerca de 40% da eletricidade global tem origem de baixo carbono, entre renováveis e nuclear. A expansão dessas fontes aumenta a estabilidade relativa do suprimento elétrico frente aos combustíveis fósseis, fortalecendo o argumento pela transição.
Para setores que não podem ser eletrificados diretamente, surgem caminhos como hidrogênio e fuels avançados. Hidrogênio produzido com eletricidade limpa pode compor amônia ou hidrocarbonetos sintéticos, abrindo oportunidades para transporte pesado e indústria.
O verdadeiro impacto ambiental desses caminhos depende do ciclo de vida. Produção com energia de carvão neutraliza parte dos benefícios, enquanto opções com energia renovável e captura de carbono melhoram o balanço ambiental.
Especialistas veem a transição como uma mudança estrutural. Fatih Birol aponta que é improvável retornar ao cenário anterior, com a segurança energética cada vez mais dependente de controle local sobre recursos e infraestrutura.
A transformação reforça o papel da política pública na construção de cadeias de suprimento estáveis e na redução de vulnerabilidades. Novas oportunidades aparecerem em tecnologias limpas, combustíveis avançados e desenvolvimento industrial próprio.
Em síntese, a energia deixa de ser apenas uma mercadoria para se tornar um tema de autonomia estratégica. A gestão de recursos, resiliência de redes e controle de choques externos passam a orientar decisões públicas e empresariais, segundo análises de especialistas.
Fonte: reportagem originalmente publicada no Forbes, com referência à visão de especialistas sobre segurança energética e transição.
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