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Livro reconstrói o terror de campo de concentração no Chile de Pinochet

Livro reconstrói Dawson como símbolo de violência estatal, unindo confinamento indígena no século XIX ao campo de concentração da ditadura de Pinochet

O escritor José Godoy, autor de 'A Ilha do Silêncio'
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  • O escritor José Godoy lança o livro A Ilha do Silêncio, fruto do seu doutorado, que reconstruí o confinamento de indígenas Selk’nam e Kawésqar na ilha Dawson a partir de 1889 e o campo de concentração dos anos de 1970 durante a ditadura de Pinochet.
  • Dawson fica no estreito de Magalhães e está sob controle da Marinha, o que impede visitas oficiais ao local, segundo o relato do autor.
  • A obra também revisita as impressões do naturalista Charles Darwin sobre os nativos da região e imagens do etnólogo Martin Gusinde, além de mencionar Miguel Lawner, que produziu registros do cotidiano dos prisioneiros enquanto esteve encarcerado.
  • Godoy busca ligar as duas fases históricas a um fio comum de violência estatal na América Latina, referindo-se a “ilhas Dawson” como espaços de memória traumática.
  • Embora Dawson seja um lugar de memória oficial no Chile, disputas sobre o legado da ditadura mantêm o isolamento e dificultam o acesso ao local.

Dois episódios trágicos na história chilena, separados por quase um século, tiveram Dawson, ilha subantártica no estreito de Magalhães, como cenário. Primeiro, o confinamento de povos indígenas no fim do século 19; depois, a criação de um campo de concentração para opositores do regime de Pinochet, nos anos 1970. A ilha ficou sob controle da Marinha do Chile.

O livro A Ilha do Silêncio: Terror e Genocídio na Terra do Fogo, de José Godoy, reconstrói esses acontecimentos a partir de documentos e relatos. A obra resulta do doutorado em literatura do autor pela PUC-RJ e integra a trajetória de laços entre trauma, colonialismo e autoritarismo na região.

Na história antiga, indígenas selk’nam e kawésqar foram deslocados a partir de 1889 pela tutela de religiosos salesianos para uma missão na ilha Dawson, com o objetivo de catequizar e transformar em mão de obra para as estâncias da região. A tentativa culminou na morte por doenças trazidas pelos europeus, levando ao fechamento da missão em 1911.

Nos anos 1970, após o golpe militar que derrubou o governo de Salvador Allende, a ilha again aparece como espaço de contenção. O regime de Augusto Pinochet utilizou Dawson como campo de concentração, mantendo seus internos sob rígido controle. O acesso da imprensa e de pesquisadores tem sido historicamente restrito pela autoridade naval.

O texto de Godoy também revisita os registros de Charles Darwin sobre os povos da Terra do Fogo, destacando as primeiras noções usadas para justificar a ocupação. Imagens do etnólogo Martin Gusinde, que documentou rituais dos povos locais, aparecem como parte do arcabouço histórico analisado no livro.

Além disso, a obra destaca Miguel Lawner, arquiteto chileno e militante comunista que esteve entre os prisioneiros do campo pinochetista. Ao conseguir papel e lápis, Lawner produziu registros do cotidiano dos internos, abrindo possibilidades de documentação que sobreviveram ao período.

A narrativa de Godoy percorre a relação entre a ilha Dawson e o momento atual: Dawson é reconhecida como local de memória oficial do Chile, mas permanece cercada por disputas sobre seu legado. A dificuldade de chegar até a ilha é explicada como consequência de restrições militares e políticas.

O autor envolve o leitor ao alternar a linha do tempo com relatos de viagem que percorrem desde Punta Arenas, no continente, até o extremo sul, buscando compreender a distância entre o passado e o presente. Em todo o trabalho, o foco é informar de modo claro e fundamentado.

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