- Dois importadores holandeses aparecem ligados a madeira de origem suspeita extraída na Amazônia, conforme relatório da ONG Earthsight.
- A investigação aponta que a Samise Indústria Comércio e Exportação teve concessões suspensas em maio de 2023 por fraude, transporte irregular de toras e substituição de etiquetas.
- Parte da madeira foi levada para serrarias da Greenex e, depois, exportada aos importadores holandeses Hoogendoorn Hout e Van den Berg Houtgroep.
- O caso evidencia falhas no controle de certificação FSC e na regulamentação de comércio de madeira da União Europeia, defendendo aplicação mais rígida de leis como o EUTR e o EUDR.
- Em junho de 2026, o Serviço Florestal Brasileiro rescindiu a concessão da Samise; houve reviravolta com testes de DNA que comprovaram origem diversa, além de processos criminais e multas.
Two importadores holandeses ligados a madeira suspeita da Amazonia são foco de nova investigação que aponta aquisição de madeira possivelmente vinda de uma das maiores empresas de manejo florestal no Brasil, que havia perdido permissões temporariamente.
A empresa brasileira Samise Indústria Comércio e Exportação foi responsável por desmatamento para construção de estradas e pátios de madeira meses antes de obter licenças de operação, segundo a organização Earthsight. Funcionários teriam adulterado etiquetas de identificação e deslocado madeira sem autorização.
A madeira foi, em parte, encaminhada a serrarias da empresa Greenex S/A Indústria Comércio e Exportação de Madeira, e exportada para as empresas holandesas Hoogendoorn Hout e Van den Berg Houtgroep. O relatório aponta vulnerabilidades no controle do comércio internacional e na certificação de manejo sustentável.
Cadeia de suprimento e certificação
Rafael Pieroni, líder da equipe da Earthsight na América Latina, afirma que as regulações precisam ir além de checks superficiais. Importadores europeus devem evitar tratar certificação como substituto de due diligence rigorosa.
Na década de 2010, a Samise teve concessões florestais no Saracá-Taquera, área de 429 mil hectares coberta principalmente por floresta primária, abrindo espaço a exploração de madeira de alto valor como angelim vermelho.
O embargo às operações da Samise ocorreu em maio de 2023, após apuração do ICMBio, órgão federal responsável por áreas protegidas. A auditoria apontou transporte irregular de toras e substituição de etiquetas antes de inspeção.
Ainda em 2023, a Samise moveu madeira de Terra Santa, Pará, para a serraria de Greenex em Santa Bárbara do Pará, totalizando 3,8 mil m³ de angelim vermelho, madeira de alta densidade usada em deck e estruturas externas.
A liberação do embargo em julho de 2023, após testes de DNA de madeira que mostraram que toras não correspondiam aos tablamentos na propriedade da Samise, foi contestada pela Earthsight por possíveis conflitos de interesse envolvendo o proprietário da Samise.
Fiscalização e desdobramentos
Entre 31 de julho de 2023 e decisões posteriores, operações da Samise enfrentaram novos questionamentos: funcionários teriam lixado e trocado números de identificação em mais de 600 toras, indicando ocultação de extração irregular. O valor estimado da madeira envolvida foi de cerca de 113 mil dólares.
Decisões administrativas subsequentes levaram à suspensão da operação e a sanções, incluindo multas e prestação de serviços à comunidade para projetos ambientais. Em junho de 2026, o Serviço Florestal Brasileiro rescindiu a concessão da Samise na Saracá-Taquera.
Comércio holandês e supervisão
Não é possível provar, com certeza, que as toras de angelim vermelho manipuladas em 2023 durante o embargo tenham sido as mesmas exportadas aos importadores holandeses. Contudo, entre julho e outubro de 2023, todas as exportações de angelim vermelho para a Holanda teriam partido de toras da Samise.
A Greenex era exportadora líder de madeira para a Europa, com a Holanda respondendo por cerca de 30% das vendas internacionais. Mais de 90% das vendas da Greenex para a Holanda vão para Hoogendoorn Hout, Van den Berg Hardhout e GWW Houtimport, que posteriormente integraram a Van den Berg Houtgroep.
As empresas consultadas não comentaram o caso. Em nota, a Greenex afirma possuir certificação FSC desde 2016, mas já recebeu diversas multas por exportação sem autorização ambiental. A certificadora FSC ressalta que sanções não precisam ser reportadas automaticamente, mas mudanças operacionais devem ser comunicadas.
A Earthsight sustenta que as falhas nas regras da FSC limitam a validade da certificação como garantia legal. Regulamentações comerciais internacionais, como o EUTR, exigem avaliação de risco de ilegalidade e rejeição de operações duvidosas. O EUDR deverá entrar em vigor em dezembro, com exigências mais rígidas para comprovar origem da madeira, incluindo uso de mapas e dados geoespaciais.
A organização enfatiza que, para que o EUDR seja eficaz, autoridades e empresas devem superar falhas de aplicação observadas no EUTR, adotando diligência devida mais robusta e contínua.
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