- 115 escritores da Grasset assinam carta aberta protestando a demissão do CEO Olivier Nora e alegando interferência de Vincent Bolloré, dono da Hachette.
- Eles afirmam que não vão publicar novos livros com a Grasset, mesmo mantendo obras já lançadas pela editora.
- A carta cita a atuação de Bolloré na gestão de outros veículos do grupo Hachette e destaca o medo de que selos se tornem de extremo direita.
- A Grasset tem sede no Quartier Latin, em Paris, e os signatários cobram independência editorial diante o que chamam de “guerra ideológica”.
- O anúncio ocorre na véspera do Festival do Livro de Paris, que começa hoje no Grand Palais e espera receber cerca de cem mil visitantes.
A crise no mercado editorial francês ganhou contornos inéditos: 115 escritores da Grasset se recusaram a publicar novos títulos da editora, como protesto pela demissão do CEO Olivier Nora. A decisão é ligada à percepção de interferência do magnata Vincent Bolloré, dono do grupo Hachette, ao qual a Grasset está vinculada.
Entre os signatários constam nomes como Virginie Despentes, Sorj Chalandon, Bernard-Henri Lévy e Frédéric Beigbeder. Em carta aberta, publicado na noite de quarta-feira, os autores acusam a Grasset de perder independência editorial após a saída de Nora, que comandava a casa há 26 anos.
Colombe Schneck, romancista, afirmou à AFP que houve tensões políticas dentro da casa, com atuação de figuras de esquerda e de direita. Segundo ela, a demissão de Nora foi a faísca para o movimento, que visa impedir que selos do grupo Hachette ingressem em discursos autoritários.
A Grasset conta com 38 funcionários na sede do Quartier Latin, em Paris. Um trabalhador afirmou que a situação é chocante e descrita como uma bomba para a editora. A tensão coincide com a preparação para o Festival do Livro de Paris, que começa hoje no Grand Palais.
Contexto institucional
Vincent Bolloré passou a controlar a Hachette em 2023. O empresário é uma figura central da mídia francesa e dirige a TV CNews, entre outros meios. Críticos o comparam a uma força que pode reorganizar fielmente o panorama editorial.
Jean-Christophe Thiery, CEO do Groupe Louis Hachette, foi indicado para presidir a Grasset, conforme comunicado na terça-feira. A mudança ocorre sem explicação oficial sobre os motivos da saída de Nora, a quem a carta presta homenagem pela independência mantida.
A carta dos autores reitera que não deseja remar contra a corrente democrática na cultura francesa. O grupo também aponta que o movimento não se limita à Grasset, mas representa resistência a uma suposta guerra ideológica impulsionada por interesses econômico-midiáticos.
Autoras e autores consideram abrir ações judiciais para retomar direitos de obras já publicadas pela Grasset. A eclosão do movimento ocorre em meio a críticas a políticas editoriais associadas ao conglomerado de Bolloré, presente de forma ampla no setor.
Com AFP
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