- Assessor regional da Opas afirma que a indústria do álcool mira crianças cedo, criando familiaridade com marcas já na infância e impactos de longo prazo.
- Durante a Copa do Mundo de 2014, estima-se que ao menos 300 milhões de crianças e adolescentes foram expostos a anúncios de cerveja e destilados.
- Pesquisas nacionais indicam uso de álcool entre jovens: PeNSE de 2024 mostra 53,6% de 13 a 17 anos já beberam; 29,3% tomaram a primeira dose aos 13 anos ou menos.
- Regulação atual é considerada fraca: a lei brasileira restringe anúncios acima de 13% apenas em rádio e TV entre 21h e 6h; ambiente digital não é coberto.
- Proposta defendida é criar uma autoridade independente para regular publicidade de bebidas alcoólicas, com regras amplas para TV, redes sociais, plataformas digitais e eventos esportivos, abrangendo também bebidas sem álcool.
Doze anos após a adoção de restrições à publicidade infantil no Brasil, a indústria de bebidas alcoólicas continua buscando formas de atingir crianças e adolescentes. A avaliação é feita por Raúl Martín Del Campo Sánchez, assessor regional de políticas de álcool e drogas psicoativas da Opas, com base em sua participação na Conferência Global de Políticas do Álcool no Rio de Janeiro.
Segundo Sánchez, as estratégias de marketing não esperam a maioridade para começar a atrair jovens. O objetivo é criar vínculos precoces com os produtos, associando-os a efeitos positivos de longo prazo e preparando futuros consumidores, mesmo que de forma indireta.
Pesquisas recentes indicam que crianças já reconhecem marcas de cerveja ainda bem jovens, o que colabora para uma percepção favorável ao consumo. Ao chegar à adolescência, esses jovens podem ter expectativas positivas sobre beber, o que reforça o efeito do marketing.
No cenário global, há indícios de que a indústria de bebidas alcoólicas utiliza recursos semelhantes aos observados no tabaco, com presença em redes sociais, eventos esportivos e patrocínios. A exposição desses ambientes eleva a visibilidade das marcas entre o público jovem.
No Brasil, dados nacionais já sinalizam impactos. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024 mostrou que mais da metade dos alunos entre 13 e 17 anos já experimentou bebida alcoólica, com maior prevalência entre as meninas. A primeira dose antes dos 13 aparece em quase 30% dos casos.
Uma pesquisa divulgada em 2025 aponta que metade da população adulta consome álcool. Entre jovens de 16 e 17 anos, 27% relatam consumo, o que evidencia continuidade de padrões de uso entre gerações.
Para o especialista, a regulação atual é frágil. A lei 9.294/96 restringe propagandas de bebidas com teor acima de 13% apenas no rádio e na TV entre 21h e 6h, mas não cobre ambientes digitais ou bebidas de menor teor alcoólico, abrindo espaço para campanhas online.
A atuação digital é destacada por especialistas, que afirmam que influenciadores e conteúdos podem funcionar como promoção indireta. Visuais de consumo positivo no feed reforçam a ideia de normalidade do ato de beber entre jovens.
Diante disso, Sánchez defende a criação de uma autoridade independente para regular a publicidade de bebidas alcoólicas, sem influência da indústria, com regras abrangentes para TV, internet, redes sociais e eventos esportivos. Medidas parciais tendem a falhar pela migração de investimentos.
Entre as propostas, há a ideia de estender regras a bebidas sem álcool, utilizadas como estratégia de marca. O objetivo é que as publicidades transmitam os riscos do consumo e tratem o álcool como um produto com potencial de prejuízos à saúde, similar ao que ocorre com o tabaco.
Essa atuação regulatória colocaria em foco a necessidade de fiscalização mais rígida, com sanções para campanhas que atingirem o público jovem. A abordagem busca reduzir o impacto da publicidade precoce e promover uma visão de consumo responsável.
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