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Transformação do espaço público costuma enfrentar resistência

Transformações do espaço público geram resistência mesmo com benefícios, revelando desconfiança histórica ante mudanças e necessidade de diálogo estruturado

Área nobre: o Jardim de Alah fica na divisa entre Lagoa, Leblon e Ipanema
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  • Transformação do espaço público costuma gerar resistência e desconfiança, mesmo quando há benefícios coletivos e participação institucional.
  • Exemplo no Brasil: Jardim de Alah, na zona sul do Rio de Janeiro, passou por projeto de requalificação público-privado em 2023, com contrapartidas sociais e ambientais, enfrentando forte oposição.
  • Dificuldades no debate envolvem promessas não cumpridas, mudanças de direção e baixa previsibilidade regulatória, apesar do Estatuto da Cidade exigir revisões periódicas dos planos diretores.
  • Casos que ganharam aceitação gradual, como fechamento dominical da Avenida Paulista e demolição do Elevado da Perimetral, mostram que medidas inicialmente criticadas podem virar avanços urbanos.
  • Experimentos urbanos em Nova York e Paris, como Open Streets (2020) e Rues aux écoles, indicam que intervenções provisórias podem tornar cidades mais caminháveis, humanas e seguras, ainda com conflitos.

A transformação do espaço público costuma enfrentar resistência, mesmo quando busca promover sustentabilidade e convivência mais democrática. Propostas de transformação urbana raramente conquistam consenso e costumam gerar desconfiança.

Especialistas apontam que o comportamento humano tende a resistir a mudanças na rotina e no entorno imediato. Historicamente, mudanças públicas provocam embates entre visões desenvolvimentistas e preservacionistas.

O caso do Jardim de Alah, na zona sul do Rio de Janeiro, mostra esse padrão: área degradada passou a ser alvo de uma PPP em 2023, com contrapartidas sociais e ambientais, mas enfrentou forte resistência mesmo com cumprimento formal de regras.

Entre os fatores, está a desconfiança sobre o poder público e a violação de promessas anteriores. O histórico de mudanças abruptas alimenta a percepção de imprevisibilidade regulatória.

O Estatuto da Cidade, de 2001, prevê revisão dos planos diretores a cada dez anos, reconhecendo a cidade como organismo vivo que requer adaptação contínua. Ainda assim, o debate público costuma perder densidade.

Audiências públicas, exigidas em propostas de transformação, tendem a ser dominadas por interesses específicos, às vezes distantes de uma visão de cidade para o longo prazo. A qualidade do debate pode divergir do interesse coletivo.

Alguns exemplos ajudam a entender o paradoxo: fechamentos de ruas aos domingos têm, em alguns casos, sido vistos como retrocesso, mas, com o tempo, podem gerar mobilidade e melhor convivência urbana.

Cidades como Nova York e Paris também experimentam medidas impopulares que visam tornar os espaços mais humanos. Em Nova York, o programa Open Streets cresceu de piloto a política permanente; em Paris, o Rues aux écoles prioriza pedestres.

Apesar das críticas, especialistas destacam que reduzir a dependência do automóvel, ampliar o transporte público e incentivar usos mistos do solo são caminhos para cidades mais justas e acessíveis. Esses objetivos orientam o planejamento a longo prazo.

O debate mostra que a transformação urbana exige escolhas concretas, com cuidado para não perder de vista o interesse coletivo e as necessidades de quem vive hoje nas regiões impactadas.

Fonte: Luciane Virgilio, professora e pesquisadora associada ao Insper, especialista em planejamento urbano.

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