- A parcela de brasileiros que acredita que outra postura do governo teria reduzido as mortes por Covid caiu de 62% em 2023 para 40,5% em 2026, em pesquisa da Unifesp/Instituto Ideia com 1.500 pessoas.
- O estudo aponta enfraquecimento da memória da gestão da pandemia, atribuído à polarização política e ao tempo que passou desde o ocorrido.
- A pergunta sobre “sim” à hipótese de outra conduta governamental varia com a orientação política: 63,5% entre eleitores de Lula versus 20,8% entre eleitores de Bolsonaro; 71% entre esquerda e 15,6% entre direita.
- A adesão às campanhas de vacinação permanece em 72,1%, estável desde 2023, mas abaixo de patamares históricos do Programa Nacional de Imunizações.
- No tópico justiça e reparação, 45% são a favor de responsabilizar crimes relacionados à pandemia, 27,2% são contrários e 27,8% não sabem; queda em relação a 2023, especialmente entre faixas de maior renda.
A parcela de brasileiros que atribui ao governo de Jair Bolsonaro a responsabilidade por mortes durante a Covid caiu de 62% em 2023 para 40,5% em 2026, uma redução de 21,5 pontos percentuais. O levantamento foi feito pelo Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência da Unifesp, em parceria com o Instituto Ideia, entre 26 de fevereiro e 1º de março de 2026, com 1.500 entrevistados.
A pesquisa aponta um enfraquecimento da memória crítica sobre a gestão federal da pandemia, avaliada como resultado da polarização política e do tempo decorrido desde a crise. A maioria dos entrevistados não identifica origem única para o recuo na memória pública, destacando múltiplos fatores envolvidos.
O que mudou em 2026
Questionados sobre se outra conduta do governo teria reduzido as mortes, 40,5% responderam sim, 28,6% não e 30,9% não souberam. Em 2023, 62% disseram sim, com 48,3% respondendo que houve “sim, muito menos mortes” e 13,7% “sim, um pouco menos”.
A divisão política continua determinante: entre eleitores de Lula, 63,5% responderam sim; entre eleitores de Bolsonaro, 20,8%. Entre esquerda, 71% concordam; entre direita, 15,6%.
Percepção da pandemia e memória pública
A leitura da pandemia saiu da esfera de fatos para uma disputa ideológica, avaliam os pesquisadores. O distanciamento temporal, a reorganização política do país e a ausência de memória pública consolidada contribuíram para o esquecimento.
A adesão às campanhas nacionais de vacinação permanece estável em 72,1%, próximo ao nível de 2023, mas abaixo dos patamares históricos do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Cerca de 28% dos entrevistados não estão plenamente vacinados.
Entre os não plenamente vacinados, aproximadamente um terço se declara antivacina, outro terço interrompeu a vacinação após a pandemia e o restante é composto por indecisos e indiferentes. Segundo os especialistas, os dois últimos grupos somam em torno de 18%.
Vacinação e confiança pública
Mesmo com três anos de governo não negacionista, a adesão vacinal não retornou ao patamar anterior. A desinformação e o negacionismo científico passaram a influenciar a confiança pública nas vacinas, segundo os pesquisadores.
A queda de adesão é mais acentuada entre jovens: 62,9% entre 16 a 24 anos e 62% entre 25 a 34 anos, ambos abaixo da média de grupos com 35 anos ou mais. A explicação não é aumento do núcleo antivacina entre jovens, mas maior indiferença e menor mobilização.
Justiça, reparação e opiniões sobre responsabilização
A parcela que apoia o julgamento de possíveis crimes relacionados à pandemia permanece majoritária, em 45%, frente a 27,2% contrários e 27,8% indecisos. A taxa de apoio caiu desde 2023, quando era de 51,5%.
Entre as faixas de renda mais altas, o apoio ao julgamento recuou de 58,9% para 34,3%. Ao perguntar sobre medidas de justiça, as respostas mais citadas foram: tribunal especial (31,1%), comissão da verdade (29,7%) e indenizações a vítimas e órfãos (27%), todas com queda em relação a 2023.
Perspectivas para vacinação contra dengue
O estudo testou a receptividade à vacina contra dengue, desenvolvida pelo Instituto Butantan e disponível pelo SUS desde o início de 2026. Aproximadamente 70% manifestaram atitude favorável, com 56,2% pretendendo se vacinar assim que possível e 13,7% considerando a vacina importante, mas sem prioridade.
Cerca de 25% mostraram indiferença, hesitação ou desinteresse, e 4,8% se declararam antivacina. Idosos acima de 60 anos foram os que mais disseram que pretendem se vacinar (62%), embora a vacina do Butantan seja indicada para pessoas de 12 a 59 anos.
Considerações finais do estudo
Para recompor patamares de cobertura vacinal anteriores, os pesquisadores defendem reconstruir a comunicação pública em TV, rádio, redes digitais, escolas e unidades de saúde, com foco nos jovens hesitantes. A vacina da dengue pode abrir espaço para uma nova campanha nacional, segundo os especialistas.
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