- A presidente da Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) afirma que o Brasil, antes visto pela convivência entre grupos, ficou mais hostil após os ataques de 7 de outubro de 2023.
- Aumento de episódios de antissemitismo é apontado como sintoma de uma mudança mais ampla, com forte expansão nas redes sociais, além de relatos em universidades e em manifestações políticas.
- A Fisesp defende condenação inequívoca de discursos que relativizam o Holocausto ou negam direitos dos judeus, e defende a adoção formal da definição de antissemitismo da IHRA como ferramenta pública.
- Há preocupação com a normalização de discursos preconceituosos no debate público, incluindo acusações que associam judeus ao nazismo e a importação de conflitos internacionais para o país.
- A entidade destaca a necessidade de ações em educação, segurança e monitoramento de crimes de ódio, fortalecendo cooperação entre autoridades e comunidades, para preservar a convivência democrática e plural no Brasil.
Hostilidade cresce e desafia tradição de convivência, diz Fisesp
A presidente da Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) afirma que o ambiente de convivência entre diferentes religiões e culturas no Brasil ficou mais hostil desde os ataques do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023. Ela aponta a polarização política, a radicalização nas redes e a importação de conflitos internacionais para o debate nacional como gatilhos. A dirigente tem 59 anos e está à frente da entidade desde 2025, tendo passado pela gestão pública paulista.
Segundo a presidente, o aumento de casos de antissemitismo desde outubro de 2023 é um indicativo de uma mudança mais profunda na sociedade. O problema não se restringe a incidentes isolados de discriminação, mas envolve uma banalização de discursos antes considerados inaceitáveis. A atenção, afirma, precisa ser ampliada em toda a sociedade.
A Fisesp defende que as autoridades condenem de forma inequívoca qualquer discurso que relativize o Holocausto ou negue direitos a judeus. A postura pública deve deixar claro que o preconceito, em qualquer forma, não terá espaço na sociedade brasileira. A instituição enxerga a discussão como um debate sobre o tipo de sociedade que o Brasil quer construir.
A dirigente vê a questão como além da comunidade judaica, envolvendo o tecido social. Em suas palavras, trata-se de uma escolha sobre convivência, em que a diversidade deve ser encarada como riqueza, não como ameaça. O foco principal, reforça, é fortalecer a vigilância e a educação para enfrentar o preconceito.
Impactos na rotina e na segurança
A entrevista mostra que a rotina de escolas, sinagogas e organizações judaicas passou por mudanças nos protocolos de segurança desde outubro de 2023. Além disso, houve impacto emocional, com famílias mais preocupadas com a exposição de jovens e aumento da hostilidade em universidades e redes sociais.
A Fisesp aponta que o ambiente digital funciona como fator amplificador de discursos de ódio e desinformação. Contudo, relatos também indicam que incidentes ocorrem fora da internet, incluindo espaços acadêmicos e manifestações políticas, onde símbolos antissemitas ganham visibilidade.
A entidade destaca que o antissemitismo também se manifesta de forma velada, muitas vezes mascarado de debates políticos ou acadêmicos. O desafio é distinguir críticas legítimas de discriminação contra judeus, mantendo o debate público dentro de limites respeitosos.
Políticas públicas e educação
A visão da Fisesp é de que o combate ao antissemitismo precisa ser uma política de Estado, com fortalecimento da segurança, da coleta de dados e da cooperação entre órgãos públicos e comunidades. A instituição defende a adoção formal da definição IHRA para orientar políticas públicas, educação e segurança.
No campo educacional, há uma pressão para ampliar o ensino sobre o Holocausto, a história da presença judaica no Brasil e os mecanismos que transformam preconceitos em violência. A atuação visa prevenir que o preconceito seja naturalizado em qualquer esfera.
Importação de conflitos e ambiente universitário
A Fisesp aponta preocupação com a importação de conflitos do Oriente Médio para o Brasil, especialmente em universidades e movimentos políticos. Jovens judeus relatam sensação de ostracismo, discriminação e exposição a pressões ideológicas, o que compromete a pluralidade no ambiente acadêmico.
A instituição cita exemplos de falas públicas de autoridades que, segundo a avaliação, contribuem para um ambiente hostil. Analisa-se como tais manifestações podem normalizar comparações que banalizam o Holocausto e alimentam estereótipos contra judeus.
Perspectivas para 2026
A presidente afirma que o diagnóstico de convivência pacífica ainda é válido, embora sob risco de erosão gradual de consensos civilizatórios. A resposta envolve ações de educação, cultura e institucionalidade, além de medidas de segurança e de políticas públicas claras contra a discriminação.
Por fim, a Fisesp enfatiza que preservar a diversidade é essencial para o funcionamento da democracia. O objetivo é garantir que o Brasil continue a ser um país onde diferentes origens convivam com respeito e dignidade.
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