O professor Marcos Nobre, da Unicamp, explica em entrevista como surgem disputas entre aliados no chamado Partido Digital Bolsonarista. A obra coletiva O Partido Digital Bolsonarista, organizada por Nobre e Ana Claudia Teixeira, analisa esse ecossistema político digital. O livro está disponível para download no site do Cebrap.
A tese central é que críticas entre aliados nas redes vão além de brigas internas. Segundo Nobre, o ambiente digital funciona com regras de disputa de hegemonia, semelhante a um partido, com construção coletiva de padrões de postagem e estética. Há intenção de unidade, mesmo com divergências.
Entre os casos analisados, destaca-se a rivalidade entre Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira. Eduardo acusa Nikolas de não defender ações nos Estados Unidos e de não denunciar a condenação de Jair Bolsonaro. Nikolas, com mais seguidores, é visto como insider desde 2020, após acolhimento da cúpula.
O livro aborda ainda a lógica de hierarquia permanente no partido digital. Ao contrário de partidos tradicionais, quem sobe não garante automaticamente permanência; enfrentar desafios é parte do funcionamento. Joice Hasselmann é citada como exemplo de ascensão e queda dentro desse ecossistema.
Segundo a leitura de Nobre, Jair Bolsonaro continua no topo, com Flávio alinhando a atuação à política formal. Eduardo, que já teve ligação com relações internacionais, é apresentado como figura que buscou manter influência, mesmo diante de mudanças de função e alianças.
O estudo também compara o Partido Digital Bolsonarista a partidos-plataforma, mas ressalva que ele não se institutionaliza. O financiamento e a relação com siglas tradicionais, especialmente o PL, são pontos-chave. A obra aponta que o partido pode “parasitar” outros esquemas para ampliar influência.
Para os autores, o Partido Digital Bolsonarista combina participação aberta com hierarquia rígida. A liderança precisa ouvir a base, mas as decisões são influenciadas pelo apoio a determinados temas e pela capacidade de manter a coesão diante de críticas internas.
A obra ainda discute o papel de plataformas digitais como instrumento político. Embora muitos afirmem que o movimento não tem programa estruturado, há convergência conservadora em posições que variam conforme a resposta da base. Em temas como armas, há ajustes de posição conforme pressão interna.
Em síntese, o livro sugere que o bolsonarismo digital se apresenta como antissistema, ao mesmo tempo em que utiliza a estrutura de partidos tradicionais para mobilização. O conceito de democracia interna convive com práticas de exclusão e mutações de liderança.
Entre na conversa da comunidade