Roni Nelson Batista Ramos passou sete anos patrulhando as ilhas de Cabo Verde e hoje protege tartarugas marinhas ameaçadas nas praias onde antes as caçava. Ele revela que, décadas atrás, caçar tubarões era comum para alimentar a família e que a carne de tartaruga era consumida livremente pelos moradores. A legislação mais rígida criminalizou a matança de espécies ameaçadas, reduzindo significativamente a caça no país.
A queda da caça é atribuída a esforços de conservação, fiscalização com apoio de tecnologia e novas oportunidades de emprego para moradores. Ramos afirma que hoje vigia as tartarugas contra caçadores e vê impactos positivos na conservação.
Ramos faz parte de cerca de uma dúzia de ex-caçadores contratados por organizações de conservação para reduzir a caça nas praias do arquipélago. Segundo a Turtle Foundation, as capturas ilegais de tartarugas fêmeas em Boa Vista caíram de 1.253 em 2007 para 20 em 2024, e os ninhos da tartaruga cabeçuda aumentaram mais de sete vezes no mesmo período.
Atividades de patrulha e resultados
A Turtle Foundation coordena patrulhas com rangers. O engajamento local inclui a criação de empregos e o uso de tecnologia para monitorar áreas remotas. Pesquisas indicam que outros fatores, como o turismo de observação de tartarugas, também contribuem para a redução da caça.
Apesar da diminuição do crime nas praias monitoradas, a captura de tartarugas por pescadores no alto-mar, para consumo ou venda, manteve-se estável entre 2008 e 2019. O valor de mercado da carne pode variar conforme o comprador, alimentando o comércio ilegal.
A tartaruga cabeçuda é uma das espécies que yetnestam em Cabo Verde, o segundo ou terceiro maior contingente de ninhos no mundo, dependendo do ano e da região. Estimativas indicam que cerca de dois terços da atividade de nidificação ocorre em Boa Vista.
Desafios e contexto
Na ilha, a temporada de desova ocorre de junho a outubro. Equipes da Turtle Foundation mantêm cinco campos e patrulham cerca de 31 quilômetros de litoral, com vigílias noturnas para evitar depredação de ninhos e registrar tartarugas com identificação.
O comércio ilegal envolve diversos mercados, inclusive possíveis exportações para países como EUA e França. Observa-se que exportadores e viajantes emigrantes ajudam a manter a demanda pela carne ou partes da tartaruga, dificultando a erradicação das atividades.
Além das ameaças de caça, outros riscos incluem aquecimento e poluição, sobrepesca e capturas acidentais (bycatch). A renovação de acordos de pesca entre Cabo Verde e a União Europeia pode impactar espécies marinhas, incluindo tartarugas, sharks e raias, se não houver salvaguardas adequadas.
Especialistas apontam a necessidade de ampliar a segurança jurídica, melhorar a aplicação da lei e intensificar a participação comunitária. A criação de empregos estáveis, educação ambiental e cooperação com ONGs são citadas como caminhos importantes para reduzir a caça e fortalecer a conservação.
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