Demi Getschko, pioneiro brasileiro da internet, analisa os desafios atuais da rede global e os riscos da incorporação da inteligência artificial. Em entrevista ao Correio, ele discute o papel da IA, regulação e governança pública da rede no Brasil.
O professor da USP participou da implantação da primeira conexão TCP/IP no Brasil, em 1991, e foi o responsável por iniciativas que levaram o país a se conectar à internet mundial. Hoje é conselheiro do CGI.br e diretor-presidente do NIC.br, entidades-chave da governança da rede no Brasil.
Em 17 de maio, Dia Mundial da Internet, Getschko reflete sobre a internet como construção em camadas, distingue o núcleo técnico dos serviços acima dele e aborda impactos sociais, regulatórios e o avanço da IA.
A internet é vista por ele como uma estrutura com camadas: telecomunicações na base, IP no meio e aplicações acima. Serviços como redes sociais e plataformas são construções sobre essa base, que deve preservar sua integridade.
Para o especialista, o espírito libertário da internet original cedeu espaço a preocupações com abusos, desinformação e proteção de menores. Limitar acesso por idade levanta dúvidas práticas sobre verificação de usuários.
Na visão sobre regulação, a dificuldade está em mirar a infraestrutura básica (TCP, IP, HTTP) e em lidar com plataformas globais. A regulação deve ser prática, viável tecnicamente e não comprometer a rede.
O NIC.br gerencia recursos de domínios brasileiros e financia pesquisas sobre conectividade e infraestrutura, incluindo dados sobre data centers e IA. O CGI.br atua com políticas públicas e diretrizes, como o Marco Civil da Internet.
Sobre IA, Getschko destaca que a tecnologia existe há décadas, mas o avanço recente se deve a maior capacidade computacional e volume de dados. A IA generativa é útil, mas pode induzir acomodação intelectual e gerar respostas erradas.
Ele aponta riscos de uso de conteúdos aprendidos de IA em conteúdos gerados por outras IAs, criando ciclos de desinformação. A IA deve atuar como ferramenta de apoio, sem substituir o julgamento humano.
No jornalismo, o especialista acredita que a análise e a curadoria ganham peso. A IA pode auxiliar, desde que não substitua a avaliação editorial e a credibilidade do jornalista.
Sobre a data comemorativa, Getschko mantém o tom de entusiasmo crítico pela internet. O desafio é manter o senso crítico para separar informações confiáveis das que não são, sem abrir mão da inovação.
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