Hanayrá Negreiros lança o livro Negras Maneiras de Vestir: Moda, Memória e Arte Afro-Brasileira pela Editora Paralela. A obra reconstrói, pelo fio das roupas, a história afro-brasileira que ficou ausente nos arquivos oficiais.
A pesquisadora, curadora e professora de moda utiliza um álbum de família como ponto de partida. O livro parte de fotografias domésticas para chegar ao século 19, às religiões de matriz africana e aos acervos do IMS e da Biblioteca Nacional.
A publicação chega após anos de investigação que ganhou impulso durante a pandemia. Hanayrá já leciona há mais de dez anos e transformou o material em uma produção coletiva, ampliando o debate sobre memória e moda.
O livro tem quatro capítulos, com foco inicial em imagens familiares de festas e casamentos, ampliando-se para registros pouco nomeados de mulheres negras no século 19. A obra também aborda o papel de costureiras e alfaiates negros.
No segundo capítulo, a pesquisadora lida com lacunas documentais. Para superar o silêncio, recorre à fabulação crítica, conceito de Saidiya Hartman, que preenche lacunas com imaginação responsável.
Um nome central aparece num estúdio com caixa de costura: a personagem é apresentada como Belíssima da Bahia, sem atribuir um rótulo definitivo, buscando dignificar a humanidade por trás das imagens.
A fabulação critica serve para questions sobre identidades até então apagadas. A autora admite que essas lacunas ajudam a entender os processos de memória e salvaguarda no Brasil.
O terceiro capítulo emerge da dissertação sobre indumentárias do candomblé, relacionando axé e vestuário. O quarto segmento é curatorial, reunindo quatro artistas contemporâneas: Rosana Paulino, Aline Motta, Angela Brito e Larissa de Souza.
A obra de capa, fotografada pela cineasta Juh Almeida, integra peças de Angela Brito, Carol Barreto e Lane Marinho. Em fundo, imagens do acervo do IMS, conectando passado e presente de forma contemporânea.
Ana Paula Xongani assina a prefácio e a quarta capa, ao mesmo tempo em que foi aluna de Hanayrá. A relação entre educação, memória familiar e produção artística confirma a tessitura da pesquisa.
O livro se ancora na experiência da autora como curadora do MASP e Itaú Cultural, onde aprendeu a expor roupas de modo próximo ao público, sem perder o rigor documental. A vestimenta é apresentada como objeto de afeto e estudo.
Hanayrá aponta que o campo das histórias negras relacionadas ao vestir ainda se constrói. O objetivo é incentivar que diferentes pessoas descubram seus próprios arquivos para compreender memória e cultura.
Para a autora, o projeto não se limita ao público específico. O livro funciona como convite para reconhecer a herança familiar na moda brasileira e a participação de mulheres negras na construção dessa história.
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