Pela primeira vez em quase três anos, centenas de milhares de alunos em Gaza voltaram às aulas presenciais no sábado (19). As crianças retomaram as atividades escolares em estruturas danificadas, espaços improvisados e tendas, e muitas famílias não conseguem arcar com o custo de uniformes, cadernos e canetas.
De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), 98% das escolas do território ficaram destruídas ou com algum tipo de dano ao longo do conflito. Autoridades da área de educação em Gaza apontam que cerca de 660 mil estudantes ficaram sem ensino presencial e sem uma rotina regular de estudos.
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A retomada das atividades representa um marco, ainda que frágil, depois de uma guerra que causou a morte de cerca de 22 mil estudantes, conforme Ibrahim Ramadan, diretor de educação de Khan Younis Oriental. Ainda segundo ele, mais de 770 profissionais do setor também morreram, entre eles 532 professores.
“A última vez que fui à escola foi há três anos. Agora, estamos começando o ano letivo; é um ano de alegria, felicidade e sucesso”, disse Moayed Abu Mustafa, em Khan Younis.
Mustafa disse que está determinado a aprender, mesmo que tenha que se sentar no chão de uma barraca sem ventilação, não tenha sapatos decentes, nem caderno e caneta, e tenha perdido amigos durante a guerra.
“Apesar de tudo isso, vamos aprender, vamos aprender mesmo que seja em uma barraca.”
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Samar Abu Salmi, aluna deslocada de 15 anos que mora com a família em uma barraca, também está voltando às aulas.
“Estudávamos nos celulares e não víamos nossos professores… agora, estamos de volta, perseguindo nosso sonho… de uma barraca para outra”, disse ela, falando no pátio de sua nova escola improvisada.
Ela também não tem grande parte do material escolar essencial, que se tornou inacessível para sua família.
“Antes da guerra, tudo estava ao nosso alcance — cadernos, canetas, produtos, roupas, passeios, coisas que podíamos comprar por um preço baixo”, disse Salmi.
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Escolas improvisadas
Mesmo com o território devastado, o Ministério da Educação manteve o ano letivo de 2026-2027 com a ajuda de entidades internacionais e locais. Para receber os estudantes, foram montadas dezenas de escolas provisórias, feitas de tendas, lonas, placas de metal e madeira.
Algumas dessas escolas provisórias foram erguidas em terreno arenoso. Em outras, as salas se resumem a poucos colchões e uma lousa, e os estudantes ficam apertados no espaço. Há ainda unidades que abrigam dezenas de famílias que tiveram de deixar suas casas.
“Costumávamos acordar felizes para ir à escola… Agora, quando chegamos à escola, temos medo de balas perdidas, foguetes, ataques, tudo”, disse Yamen Abu Samra, de 14 anos. “Agora, estou sentado em uma barraca que não tem absolutamente nada, apenas o sol e o calor”.
Autoridades da área de educação calculam que ao menos 540 mil estudantes participem do ensino presencial neste ano, em escolas privadas montadas de forma improvisada, centros de aprendizagem provisórios e pontos de ensino, com ajuda do Unicef. O ensino remoto seguirá sendo oferecido a quem não consegue comparecer ou deixou Gaza durante o conflito.
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Tropas de Israel seguem no controle de mais de 60% de Gaza, mesmo após a trégua do ano passado. O cessar-fogo deteve os principais confrontos, mas não encerrou o conflito.
Segundo as autoridades palestinas, mais de 73 mil pessoas morreram na ofensiva israelense contra Gaza. A ação começou depois que um ataque de combatentes liderados pelo Hamas deixou cerca de 1.200 mortos no sul do território israelense, em outubro de 2023.
Khaled Aliyan, de 30 anos, comerciante do setor de papelaria, afirmou que as limitações à importação determinadas por Israel diminuíram a oferta de produtos e encareceram as mercadorias.
“Este caderno, que costumava custar 3 shekels (US$1), agora custa 15 (shekels). Todos os artigos de papelaria estão caros”, disse ele.
A agência militar israelense Cogat, que controla o acesso a Gaza, não respondeu a um pedido da Reuters por comentários sobre as restrições ao abastecimento e os ataques a escolas. Israel acusou repetidamente o Hamas de usar escolas para fins militares, o que o Hamas nega.
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