A Organização das Nações Unidas (ONU) fez um apelo nesta quarta-feira (21) para que medidas de proteção sejam adotadas antes da chegada dos impactos mais graves do El Niño, especialmente nas regiões mais vulneráveis. Segundo a entidade, o fenômeno pode alcançar uma intensidade nunca antes registrada, ultrapassando até mesmo os limites das escalas utilizadas para monitorá-lo e com temperaturas 3,8°C acima da média.
“Hoje lançamos um apelo conjunto por medidas antecipadas, urgentes e coordenadas (…) Não podemos impedir o El Niño, mas podemos prevenir muitas de suas consequências humanas mais graves”, declarou à imprensa em Genebra a secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo.
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A secretária-geral fez o apelo ao lado do chefe de operações humanitárias da ONU, Tom Fletcher, para enfrentar os efeitos do fenômeno, que elevará as temperaturas em grande parte do planeta e afetará o regime de chuvas, aumentando os riscos de secas e inundações.
“Este episódio de El Niño é um fenômeno colossal. É uma verdadeira força destrutiva (…) vai atingir em cheio a América Latina, a África Oriental e Austral, a Ásia e a região do Pacífico”, alertou Fletcher, que teme consequências humanitárias “consideráveis”. “Isso provocará choques econômicos (…) e alimentará ainda mais os conflitos, os deslocamentos populacionais e as migrações”, previu.
“América Central precisa de ajuda imediata”
Fletcher pediu “uma mobilização total e uma resposta coordenada em escala internacional”.
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Ele anunciou a mobilização de mais de US$50 milhões (R$250,6 milhões) por meio do Fundo Central de Resposta a Emergências do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha), para ajudar 11 países mais expostos, entre eles Chade, El Salvador, Etiópia, Somália e Sudão do Sul.
Também pediu aos países, bancos de desenvolvimento e instituições financeiras que liberem recursos “antes que os danos ocorram, e não depois”.
“Somália, Etiópia e Quênia precisam de recursos e suprimentos antes da chegada das chuvas fortes; o sul da África precisa de sementes e rebanhos antes do fim dos períodos de plantio e preparação agrícola; a América Central precisa de ajuda imediata para preservar os meios de subsistência, enquanto a Ásia e o Pacífico devem se preparar para enfrentar secas, inundações e ciclones”, acrescentou.
Segundo Saulo, o atual episódio de El Niño “pode atingir uma intensidade sem precedentes, superando literalmente as escalas de monitoramento”.
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“Atingirá sua intensidade máxima no fim de 2026, mas suas repercussões serão sentidas muito depois dessa data”, advertiu.
O El Niño é um fenômeno natural que ocorre a cada dois a sete anos.
Fenômeno afeta o Brasil
No Brasil, um boletim conjunto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), divulgado em 1º de outubro, apontou 95% de probabilidade de que o El Niño alcance intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026.
A previsão indica chuvas acima da média na Região Sul, com risco de cheias, enquanto o centro-norte do país deve enfrentar condições mais secas e maior risco de incêndios florestais. As temperaturas também devem permanecer elevadas em grande parte do território nacional, e o fenômeno pode persistir até o primeiro trimestre de 2027.
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Segundo levantamento divulgado pelo Inmet na terça-feira (20), os efeitos do fenômeno já são observados na agricultura brasileira, onde estações meteorológicas do Paraná e do Rio Grande do Sul registraram, em setembro, volumes de chuva entre 60% e 135% acima da média histórica.
O excesso de precipitações tem prejudicado as lavouras de trigo, especialmente no Rio Grande do Sul, onde a colheita havia alcançado apenas 9% da área cultivada em 15 de outubro, abaixo da média de 15% registrada nos últimos cinco anos para o período. As condições também favorecem doenças nas plantações e perdas na qualidade dos grãos.
Temperaturas mais altas
As águas superficiais do centro e do leste do Pacífico equatorial se aquecem a partir da primavera, provocando mudanças nos ventos, na pressão atmosférica e nas chuvas em escala mundial.
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Em sua avaliação mais recente, a OMM projeta que a temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4, no Pacífico equatorial, fique aproximadamente 3,8°C acima da média entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
“Nunca registramos um valor de 3,8 no passado. Durante alguns episódios de El Niño particularmente intensos, observamos valores próximos de 3, que tiveram repercussões muito significativas em escala mundial”, explicou Saulo. “Estamos saindo dos limites de nossos registros e estatísticas habituais sobre o que podemos esperar”, advertiu.
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Segundo dados divulgados pelo Inmet em 13 de outubro, o aquecimento do Oceano Pacífico já apresenta marcas históricas, com a temperatura da superfície do mar na região conhecida como Niño 3.4 ficando 2,08°C acima da média em setembro de 2026, a segunda maior anomalia registrada para esse mês desde 1950.
O fenômeno se soma às mudanças climáticas provocadas pelas atividades humanas, que já intensificam os eventos meteorológicos extremos.
A OMM ressalta, no entanto, que a intensidade de um episódio de El Niño não é suficiente para determinar a gravidade de suas consequências em um país ou região.
Além disso, seus efeitos variam e podem depender de outros fatores climáticos, especialmente das condições dos oceanos Índico e Atlântico.
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(Com informações da AFP)
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