- Cientistas criaram os primeiros mapas abrangentes das redes subterrâneas de fungos micorrízicos, publicados na Nature, resultado de quatro anos de trabalho da SPUN.
- Menos de dez por cento dos hotspots de biodiversidade micorrízica ficam em áreas protegidas, deixando esses ecossistemas subterrâneos vulneráveis.
- O mapeamento usou aprendizado de máquina treinado com mais de 2,8 bilhões de sequências de DNA de solo de quase 25 mil amostras em 130 países.
- Hotspots principais incluem as encostas de Simien, na Etiópia, e o Cerrado, no Brasil; as espécies mais raras ficam em florestas da África Ocidental e na Tasmânia.
- Existem dois tipos dominantes: micorrízicas arbusculares, mais diversificadas perto do equador, e micorrízicas ectomicorrízicas, mais ricas em latitudes altas e em áreas da Antártica/América do Sul e Austrália.
O estudo publicado na revista Nature apresenta o mapa mais completo já produzido sobre redes subterrâneas de fungos micorrízicos. A pesquisa, resultado de quatro anos de trabalho, mapeou a diversidade global dessas fungias e suas implicações para ecossistemas.
A iniciativa foi liderada pela SPUN (Society for the Protection of Underground Networks), com a participação de pesquisadores internacionais. O objetivo é entender onde as redes de fungos estão mais diversas e onde recebem pouca proteção, para orientar conservação.
Os mapas revelam que menos de 10% das zonas de maior diversidade de fungos micorrízicos estão em áreas protegidas, deixando vastas comunidades subterrâneas vulneráveis a agropecuária e expansão urbana.
Descobertas-chave
As redes formadas por fungos se ligam a mais de 80% das plantas, promovendo transporte de nutrientes e água. Em solos, tais webs podem representar até um terço da biomassa, conhecido como a “rede mundial de madeira”.
A transferência de carbono para os fungos, estimada em 13 bilhões de toneladas anuais, corresponde a cerca de um terço das emissões globais de combustíveis fósseis. O carbono fica muitas vezes preso no solo.
A ferramenta Underground Atlas permite explorar padrões de biodiversidade com resolução de 1 quilômetro, revelando hotspots muitas vezes negligenciados por abordagens de conservação tradicionais.
Distribuição e áreas críticas
Para gerar os mapas, os cientistas empregaram aprendizado de máquina com mais de 2,8 bilhões de sequências de DNA de fungos, coletadas em quase 25 mil amostras de solo de 130 países.
Entre os hotspots, destacam-se as falésias das Montanhas Simien, na Etiópia, e o bioma Cerrado, no Brasil, onde há mais de 45 espécies de fungos micorrízicos por 100 metros quadrados. Espécies raras concentram-se na África Ocidental e na Tasmânia.
Proteção e ameaças
Os dados indicam baixos índices de proteção na Ásia, com apenas 2,2% dos hotspots de micorrízicos arbusculares protegidos, e 11,3% para os ectomircorrízicos. Na Europa, a proteção de arbusculares atinge 19,6%.
Mudanças climáticas e a erosão costeira ameaçam áreas com biodiversidade fúngica excepcional, como a costa de Gana. A intensificação humana aumenta o risco de perda dessas comunidades ao longo do tempo.
Implicações para conservação
Especialistas observam que as práticas de restauração costumam priorizar a vida acima do solo, ignorando redes subterrâneas. Os mapas fornecem alvos quantitativos para planos de restauração que preservem comunidades micorrízicas diversas.
A SPUN planeja expandir a rede de amostragens e criar ferramentas para gestores públicos. O Underground Atlas marca o início de tornar a diversidade fúngica visível a tomadores de decisão.
O que vem a seguir
Pesquisadores e organizações parceiras defendem maior integração entre proteção de aboveground e underground biodiversity. A meta é alinhar políticas com bases científicas para melhorar segurança alimentar, ciclos hídricos e resiliência climática.
A coordenadora executiva da SPUN e co-autora do estudo reforça a importância de reconhecer os fungos como parte essencial das soluções para desafios ambientais globais, sem influenciar decisões políticas.
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