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Civilização indígena ancestral persiste sob polo de soja urbano na Amazônia

Vestígios da Ocara-Açu, civilização indígena pré-colonial, permanecem sob o terminal da Cargill em Santarém, suscitando debate sobre memória e proteção histórica

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  • Santarém abriga uma memória indígena rica sob a paisagem atual: Ocara-Açu, aldeia Tapajós, centro da cidade que ganhou o nome Santarém somente em mil setecentos e cinquenta e oito.
  • Em mil seiscentos e sessenta e um, o missionário jesuíta João Betendorf iniciou a capela Nossa Senhora da Conceição no local, repetindo a presença de povos Tapajós e outras tribos na região.
  • A cidade moderna está marcada pela construção da terminais de soja da Cargill desde dois mil e três, o que, segundo arqueólogos, comprometeu parte de sítios pré-coloniais e camadas de terra negra.
  • Arqueólogos estimam mais de duzentos sítios arqueológicos na região de Santarém; objetos datam de até três mil anos e evidenciam uma urbanidade complexa muito anterior à visão tradicional de aldeia isolada.
  • Em dois mil e vinte e dois, moradores indígenas de Santarém protestaram contra a construção de um shopping na Praça Rodrigues dos Santos, decisão que interrompeu as obras e reacendeu o debate sobre preservar a memória e o espaço público de Ocara-Açu.

Praça Rodrigues dos Santos, no centro de Santarém, vive um paradoxo entre memória e descarte. O espaço, marcado por buracos e lixo, abriga a estátua de um sacerdote e uma placa que rememora a Aldeia Ocara-Açu, núcleo indígena que antecedeu a cidade.

A cidade, com cerca de 330 mil habitantes, tem o Tapajós como eixo e abriga hoje um terminal de soja da Cargill desde 2003, que altera o perfil urbano ao longo do rio. O conjunto revela tensões entre passado histórico e desenvolvimento econômico.

Segundo pesquisadores, Ocara-Açu foi centro de uma vasta rede de assentamentos pré-coloniais na região, com milhares de moradores antes da conquista europeia. Atualmente, poucas referências públicas valorizam esse passado.

UFOPA aponta que Santarém carece de preservação do patrimônio histórico. A cidade cresceu com ruas de concreto, obscurecendo vestígios de culturas indígenas que moldaram a ocupação do Tapajós e áreas ribeirinhas.

Aldea dos Tapajós, como era chamada a comunidade, pode ter abrigado entre 3 mil e 5 mil pessoas, segundo arqueólogos. Especialistas ressaltam que a urbanidade indígena era mais complexa do que o rótulo de “vila” sugere.

Casos de enterramentos e cerâmicas foram encontrados em sítios como Aldeia e Porto, hoje afetados pela expansão urbana e pela infraestrutura portuária, inclusive pela área da terminal da Cargill. Parte do passado está sob estruturas modernas.

Historiadores destacam que a compreensão da ocupação regional muda após o uso de tecnologias como lidar. Pesquisadores defendem que muitos sítios merecem proteção como monumentos culturais, não apenas como memória ambiental.

Entretanto, a memória indígena permanece pouco visível na paisagem de Santarém. Protagonistas locais defendem demarcação, educação e saúde como prioridades para as comunidades que habitam a região. Decisões públicas moldam o território.

Ao longo dos anos, movimentos indígenas questionaram decisões urbanas que ameaçavam áreas centrais de memória. A mobilização incluiu produção de vídeos e ações coletivas para impedir a demolição de elementos históricos da praça.

Especialistas destacam que o que hoje é visto como patrimônio pode ganhar novo significado se a praça central for rebatizada como Ocara-Açu, reconhecendo a história tupinambá e Tapajós que moldaram a cidade.

Na prática, Santarém continua sendo um mosaico entre memória indígena, expansão portuária e o cotidiano urbano. Pesquisas locais reforçam a necessidade de integrar passado e presente no planejamento da região.

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