- Há cerca de nove mil e quinhentos anos, no norte do Malawi, um grupo de caçadores-coletores realizou um ritual funerário registrado no sítio Hora 1.
- A mulher adulta foi cremadas em uma pira a céu aberto, construída para esse objetivo, com fogo mantido por horas ou dias e alto consumo de madeira.
- Em torno de duzentos e setenta fragmentos de ossos humanos, principalmente braços e pernas, mostram que a cremação ocorreu pouco após a morte, com tecidos moles ainda presentes e temperaturas superiores a quinhentos graus Celsius.
- Há indícios de manipulação do corpo durante o ritual, incluindo pequenas marcas de corte nos ossos com ferramentas de pedra e fragmentos de ferramentas misturados às cinzas.
- Este é o registro mais antigo de cremação intencional na África e a mais antiga pira funerária com resto de adulto no mundo, sugerindo organização social e alto custo energético; o estudo aponta que foram reunidos pelo menos trinta quilos de madeira morta e capim para alimentar o fogo.
Um grupo de caçadores-coletores realizou há cerca de 9.500 anos um ritual funerário no que hoje é o norte do Malawi. A cremação foi feita em uma pira aberta, criada para esse fim, com intenso envolvimento coletivo e controle prolongado do fogo.
A evidência foi publicada no jornal Science Advances e representa a cremação intencional mais antiga já localizada no continente africano, além de a mais antiga pira funerária contendo restos de adulto encontrada em qualquer lugar do mundo.
Local e contexto
O sítio arqueológico Hora 1 fica na base do Monte Hora. Escavações desde a década de 1950 já havia identificado um cemitério de caçadores-coletores, mas sem cronologia clara dos rituais. Pesquisas iniciadas em 2016 atribuíram ocupação ao redor de 21 mil anos atrás, com sepultamentos entre 16 mil e 8 mil anos atrás.
Detalhes do ritual
Dentro da pira, foram encontrados cerca de 170 fragmentos ósseos de uma mulher adulta, queimados e fraturados. A idade estimada é entre 18 e 60 anos, com altura pouco inferior a 1,5 m. Os tecidos moles estariam presentes no momento da cremação.
Marcas de corte nos ossos sugerem remoção de carne para facilitar a queima, realizada com ferramentas de pedra. Fragmentos das mesmas ferramentas foram encontrados entre as cinzas, indicando inserção de objetos no fogo.
Dinâmica e intensidade
A cremação ocorreu logo após a morte, com temperaturas superiores a 500 °C, indicando controle técnico do fogo. As análises apontam também que o corpo foi danificado durante o ritual, possivelmente para acelerar a queima.
As cinzas revelam que pelo menos 30 kg de madeira morta e capim sustentaram o fogo por horas ou dias. Vestígios de fungos queimados e solos avermelhados ajudam a reconstruir a dinâmica do incêndio.
Significado histórico
A descoberta rompe o padrão de enterros anteriores no local, que envolviam corpos intactos. A presença de uma cremação tão elaborada sugere a capacidade de organização social e custo energético elevado entre caçadores-coletores.
Pontos ainda em aberto incluem por que apenas uma mulher recebeu esse tratamento distinto, enquanto outros enterros no mesmo local foram convencionais. Pesquisadores exploram possíveis razões ligadas à identidade, papel social ou circunstâncias da morte.
Progresso científico
A pesquisa amplia a compreensão sobre práticas mortuárias na África pré-histórica, indicando que cerimônias de cremação tinham complexidade e significado simbólico suficientes para exigir planejamento e cooperação comunitária.
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