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Conhecimento indígena passa a integrar o registro científico

Conhecimento Asháninka entra no registro científico; Demetrio, Asháninka, torna-se o primeiro a liderar estudo em revista de alto impacto sobre abelhas sem ferrão

Richar Antonio Demetrio is the first Asháninka scientist to publish two papers in international scientific journals. Image courtesy of Richar Antonio Demetrio.
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  • Richar Antonio Demetrio, Asháninka da Amazônia central do Peru, tornou-se o autor principal de um artigo publicado em março de 2025, o que o tornou o primeiro Asháninka a liderar um estudo em uma revista científica de alto impacto (Ethnobiology and Conservation).
  • O texto compila conhecimentos Asháninka sobre abelhas sem ferrão, incluindo identificação de árvores-ninho, colheita de mel sem desmatar e manejo de pragas com cinzas, mostrando que grande parte dessas informações já circulava há gerações como saber tradicional.
  • O caminho de Demetrio até a autoria foi indireto: professor, líder comunitário e guarda-parque; a pesquisa ocorreu por meio de entrevistas prolongadas em língua asháninka, com construção de confiança e tradução para terminologia científica.
  • Em julho, saiu um segundo artigo, na Journal of Ecology and Environment, conectando esse conhecimento a ameaças atuais: parte relevante do habitat das abelhas ocorre em áreas de alto risco de desmatamento, sugerindo a melipicultura como alternativa de renda que não requer desmatamento.
  • A defesa central de Demetrio é que o conhecimento indígena já é sistemático e adaptável; a tarefa é traduzir, com reciprocidade, não validar como mera matéria-prima para a ciência.

Em março de 2025, Richar Antonio Demetrio, Asháninka da região central da Amazônia peruana, tornou-se o autor principal de um estudo revisado por pares que documenta o conhecimento de meliponíneos (abejas sem ferrão) da sua etnia. O artigo foi publicado na revista Ethnobiology and Conservation e marca a primeira liderança Asháninka em uma publicação de alto impacto.

O trabalho mapeia como comunidades identificam árvores de nidificação, colhem mel sem derrubar florestas e utilizam chagas como controle de pragas. O conteúdo é cuidadoso e empírico, destacando que grande parte das informações circulava há gerações sem ser tratada como ciência.

Demetrio teve uma trajetória atípica: nasceu em Caperucía, no Junín, formou-se em ensino, atuou como líder comunitário e como agente de proteção ambiental. A aproximação com a pesquisa formal aconteceu por meio de cursos e cooperação com cientistas, chegando a lidar com linguagem, espécies florestais e comunidades céticas.

A pesquisa foi conduzida com entrevistas em Asháninka, realizadas ao longo de meses e com explicações claras de como os dados seriam usados. A desconfiança inicial foi negociada, e Demetrio integrou tradução de campo para terminologia científica e para o inglês.

Link entre saber tradicional e ameaças atuais

Em julho, um segundo estudo, publicado no Journal of Ecology and Environment, conectou o saber Asháninka aos riscos atuais. Mais da metade do habitat das abelhas sem ferrão no Refúgio de Biosfera Avireri-Vraem está sobre áreas com alto risco de desmatamento.

Os autores alertam que a fragmentação compromete nidificação, forrageamento e reprodução. A melipultura surge como alternativa de sustento que não exige desmatamento, oferecendo renda e preservação da floresta.

A centralidade da pesquisa não é apenas sobre abelhas. Demetrio defende que o conhecimento indígena não é matéria-prima a ser validada pela ciência, mas já é sistemático e adaptativo. O desafio é traduzir de forma recíproca e responsável.

Este material compõe uma linha temporal de reconhecimento: Demetrio tornou-se o primeiro Asháninka a publicar dois artigos em revistas científicas internacionais, fortalecendo o diálogo entre saber tradicional e academia.

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