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Embrapa: pesquisadora defende cannabis como cultura comum no Brasil

Embrapa institui programa de pesquisa em Cannabis sativa, com foco em genética, manejo e políticas públicas, para inserir a planta na agropecuária brasileira

Daniela Bittencourt, pesquisadora da Embrapa
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  • A Embrapa recebeu uma autorização excepcional da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em novembro de 2025 para estruturar oficialmente um programa científico dedicado à Cannabis sativa.
  • O objetivo é avançar em genética, manejo, industrialização e políticas públicas, buscando transformar a cannabis em uma cultura agrícola tão relevante quanto outras culturas no Brasil.
  • Atualmente já há cultivo de Cannabis no país, estimado em ao menos 27 hectares para fins terapêuticos, em ambientes controlados, estufas e áreas abertas.
  • Com regulamentação nacional, a área cultivada pode superar 15 mil hectares no quarto ano, considerando todas as finalidades da planta (flor, fibra e semente).
  • O programa da Embrapa opera em quatro eixos: germoplasma e melhoramento genético; manejo agronômico e fitossanitário; pós-colheita e industrialização; economia e políticas públicas; com início de trabalhos previstos para março de 2026.

A autorização excepcional da Anvisa, concedida à Embrapa em novembro de 2025, marca um marco estratégico para o agronegócio brasileiro. Pela primeira vez, a principal instituição pública de pesquisa agropecuária estruturaliza um programa científico dedicado à Cannabis sativa, com foco em genética, manejo, industrialização e políticas públicas.

À frente do movimento está a médica-veterinária Daniela Bittencourt, pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. Ela destaca que o objetivo é transformar a Cannabis em uma cultura tão comum quanto outras no Brasil, com tecnologia, rastreabilidade e alto desempenho agronômico.

Um mercado que cresce antes da regra

A entrada da Embrapa ocorre em um cenário em que o cultivo já existe, ainda que de forma informal. Decisões judiciais específicas permitem a produção, mas não oferecem previsibilidade regulatória ou mecanismos da política agrícola.

Daniela aponta que hoje o Brasil já cultiva Cannabis, porém de maneira fragmentada, judicializada e sem apoio técnico estruturado. Não há zoneamento, recomendações oficiais de manejo ou cultivares registradas, elevando riscos para produtores e para o Estado.

Levantamentos indicam ao menos 27 hectares cultivados para fins terapêuticos, em estufas, áreas abertas e ambientes controlados. Com regras nacionais, projetam-se saltos expressivos, com área superando 15 mil hectares no quarto ano de regulamentação.

Potencial econômico fora da porteira institucional

Em 2025, o mercado brasileiro ligado à Cannabis — insumos, acessórios e produtos correlatos — movimentou cerca de R$ 967,2 milhões. O setor cresce fora das políticas tradicionais de crédito rural, seguro agrícola e pesquisa pública estruturada.

Daniela ressalta que o crescimento sem base agronômica tende a ser desequilibrado. A Embrapa surge para organizar dados e orientar uma regulamentação técnica, não apenas reativa.

A autorização à Embrapa estabelece um precedente institucional relevante, com impactos potenciais no mercado medicinal e em segmentos industriais como fibras, biocombustíveis, nutrição e insumos para construção.

A experiência que virou tema científico

A trajetória da pesquisadora parte de uma experiência pessoal nos EUA, durante a pandemia, quando utilizou óleo de CBD para tratar crises de ansiedade. A experiência levou Daniela a questionar a ausência de estudos da Cannabis pela Embrapa.

De volta ao Brasil, começou a estruturar a pesquisa da planta na instituição. Em 2023, foi criado um Grupo de Trabalho que consolidou diagnóstico técnico e definiu uma agenda para o país.

Quatro eixos para transformar planta em cultura agrícola

O programa da Embrapa para Cannabis está organizado em quatro eixos. O primeiro envolve germoplasma e melhoramento genético. Sem genética, diz a pesquisadora, não há agricultura moderna.

O segundo eixo trata de manejo agronômico e fitossanitário, aplicável a diferentes sistemas produtivos. O terceiro aborda pós-colheita, industrialização e aproveitamento da biomassa. O quarto envolve economia e políticas públicas, com foco em zoneamento climático e suporte regulatório.

Três unidades da Embrapa lideram os projetos iniciais: Recursos Genéticos e Biotecnologia (Brasília), Clima Temperado (Pelotas) e Algodão (Campina Grande).

Cannabis industrial e bioeconomia no horizonte

Além do uso medicinal, Daniela aponta o cânhamo como cultura estratégica para fibras, alimentos, cosméticos, construção e biocombustíveis. O Brasil já possui materiais genéticos adaptados, mas requer validação agronômica e enquadramento regulatório.

O desafio atual é transformar conhecimentos dispersos em cultivares registradas e produtivas, compatíveis com a legislação vigente. O objetivo é ampliar a base científica e regulatória da Cannabis no país.

Pesquisa agora, agricultura depois

Antes de iniciar experimentos, a Embrapa passará por inspeções da Anvisa para validar protocolos de segurança, controle de acesso e rastreabilidade. A expectativa é iniciar trabalhos de bancada em março de 2026.

A prioridade é entender o que o Brasil já possui e aplicar o rigor científico utilizado em outras culturas, afirma Daniela. A ideia é que a Cannabis seja tratada como agricultura, não como exceção.

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