- Pesquisadores mostraram que obesidade paterna pode transmitir disfunção metabólica aos filhotes por meio de moléculas presentes no espermatozoide, em estudo com camundongos.
- A prole de machos obesos nasceu com peso normal, mas ao longo de semanas desenvolveu intolerância à glicose e resistência à insulina, caracterizando disfunção metabólica silenciosa.
- Em humanos, houve validação parcial: homens obesos apresentaram excesso de let-7 no tecido adiposo e no sêmen; ao emagrecerem, esses níveis diminuíram.
- O mecanismo envolve o microRNA let-7 transferido pelo espermatozoide, que inibe a enzima DICER no embrião, prejudicando maturação de outros microRNAs e a função mitocondrial.
- Os resultados sugerem que a perda de peso pode reverter as alterações metabólicas herdadas, e que a saúde do pai pode impactar a saúde metabólica dos filhos.
O estudo, coordenado pelo bioquímico Jan-Wilhelm Kornfeld da Universidade do Sul da Dinamarca, investiga como a obesidade paterna pode deixar marcas metabólicas na prole. A pesquisa foi publicada na Nature Communications.
Em camundongos, a prole de machos obesos nasceu com peso normal, mas desenvolveu intolerância à glicose e resistência à insulina ao longo de meses. Os resultados indicam uma “disfunção metabólica silenciosa” transmitida pelo espermatozoide.
Ainda segundo os autores, o mecanismo envolve microRNAs no tecido adiposo. O let-7, especialmente let-7d e let-7e, ficou elevado no esperma de machos obesos e foi transferido ao zigoto durante a fecundação.
Mecanismo molecular e reversibilidade
Esse excesso de let-7 inibe a enzima DICER, essencial para maturação de outros microRNAs. Com a DICER prejudicada, o embrião desenvolve mitocôndrias com funcionamento comprometido, reprogramando o metabolismo do tecido adiposo.
Em seguida, quando adultos, os filhotes apresentam maior propensão a disfunções metabólicas, ainda que o peso seja estável. Machos mostraram maior sensibilidade, com fêmeas apresentando tendência menos acentuada.
Dados em humanos e confirmação
Para validar, os pesquisadores analisaram 15 homens com obesidade severa que passavam por tratamentos de fertilidade. Ao longo de seis meses de mudança de hábitos, os níveis de let-7 no tecido adiposo e no sêmen diminuíram.
Experimentos adicionais mostraram que, injetando let-7 em zigotos saudáveis, surgiram as alterações metabólicas observadas nos filhotes obesos, comprovando a sufficiente relação causal entre o microRNA e o phenotype.
Reversão e implicações
Em camundongos obesos, dieta normalizada por nove semanas eliminou o excesso de let-7 no tecido adiposo e no sêmen. Cruzamentos com machos emagrecidos geraram filhotes saudáveis semelhantes aos do grupo sem obesidade.
Os pesquisadores destacam que a saúde masculina pode influenciar a prosperidade dos descendentes. Ainda assim, ressaltam que muitos detalhes sobre a origem do let-7 não estão resolvidos.
Contexto e apoio
O trabalho envolve equipes da Unicamp, com apoio da Fapesp por meio de três projetos, e reforça a ideia de que a obesidade paterna pode afetar o metabolismo dos filhos. Os autores ressaltam a necessidade de mais estudos em humanos para confirmar os mecanismos.
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