- Estátuas e relevos de Hatshepsut foram destruídos em Deir el-Bahri, descoberta nos anos 1920 que alimentou debates sobre o motivo da ação.
- Novo estudo sustenta que Tutmés III demoliu as imagens para uma “desativação” ritual, visando neutralizar o poder espiritual da rainha, não vingança.
- Hatshepsut governou por quase duas décadas, consolidando-se como líder que se via como deusa viva e fomentou prosperidade econômica e cultural.
- O pesquisador Jun Yi Wong reavalia registros e afirma que danos não foram apenas de Tutmés III; parte das estátuas foi reaproveitada como material, dificultando a leitura dos fatos.
- A dinastia foi consolidada por meio de alianças e reformas, com monumentos danificados pela prática de damnatio memoriae, incluindo o templo de Deir el-Bahri e a construção de um domínio masculino em sua imagem.
Na década de 1920, arqueólogos que escavavam o templo de Deir el-Bahri, em Luxor, encontraram milhares de estátuas destruídas e relevos profanados de Hatshepsut, uma das poucas rainhas faraós. A imagem tradicional apontava para vingança de Tutmés III, seu enteado, após a morte da esposa-regente.
Hatshepsut, filha de Tutmés I, governou por quase duas décadas após se autoproclamar regente e depois Rainha. Durante o reinado, cultivou a imagem de deusa viva e expandiu obras públicas, fortalecendo a dinastia XVIII e abrindo rotas comerciais que financiaram sua arquitetura monumental.
Ao longo do século XX, especialistas refletiram sobre a destruição das imagens como parte de uma campanha para apagar a memória da monarca. Estudos recentes passaram a propor leitura diferente, associando os danos a uma prática ritual de neutralização do poder espiritual da rainha, não a uma vingança do filho.
Nova leitura sobre o destino das estátuas
Jun Yi Wong, doutorando em Egiptologia na Universidade de Toronto, revisou registros de escavação, fotografias e relatórios de campo. Concluiu que parte dos danos não foi causada por Tutmés III, e que as ações do herdeiro foram menos brutais do que antes se supunha.
A tese aponta que a demolição teve função de desativar o poder espiritual de Hatshepsut, com quebras em pontos estratégicos como pescoço, cintura e joelhos. Muitas esculturas foram reaproveitadas como matéria-prima, o que ajudou a confundir a percepção sobre o ocorrido.
Pesquisas indicam ainda que o vandalismo não ocorreu de modo uniforme. Restos de rostos intactos aparecem em peças menos danificadas, sugerindo uma operação de reciclagem com critérios práticos, e não apenas um ato de represália pessoal do sucessor.
Os trabalhos de revitalização do templo de Deir el-Bahri, incluindo as alterações em áreas de procissão, demonstram que edições sucessivas no monumento buscaram manter a relevância religiosa e ceremonial, mesmo após o afastamento de Hatshepsut. A leitura atual coloca a narrativa da dinastia em um plano mais complexo.
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