- Estudo publicado na Science sequenciou genomas de 1.094 fêmeas de Anopheles darlingi coletadas em 16 localidades da Guiana Francesa, Brasil, Guiana, Peru, Venezuela e Colômbia.
- O mosquito, principal vetor da malária na América, evolui para sobreviver aos métodos de controle humano por seleção genética impulsionada pelo uso de inseticidas.
- Sinais de seleção foram encontrados em genes do citocromo P450, apontando maior capacidade de detoxificar químicos usados no combate à doença.
- A participação brasileira foi liderada pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, com colaboração de Harvard e Broad Institute, sob normas do Tratado de Nagoya.
- A pesquisa reforça a necessidade de vigilância entomológica regional e de uso estratégico de inseticidas, com avaliação contínua da eficácia para avançar na eliminação da malária.
Um consórcio internacional de pesquisadores, com participação da Faculdade de Saúde Pública da USP, publicou um estudo na Science sobre o Anopheles darlingi. Foram sequenciados 1.094 genomas de fêmeas coletadas em 16 locais da região amazônica e vizinhanças, incluindo Brasil, Venezuela, Colômbia, Guianas e Peru.
A pesquisa revela que o mosquito está evoluindo por seleção genética impulsionada pelo uso de inseticidas, aumentando a sobrevivência da espécie. O objetivo é entender como a resistência afeta o controle da malária em áreas tropicais das Américas.
A participação brasileira foi coordenada pela professora Maria Anice Mureb Sallum, da FSP, que lidou desde o delineamento até a coleta de dados e conformidade regulatória junto à USP e à legislação brasileira, observando o Tratado de Nagoya.
A colaboração reuniu instituições da Venezuela, Colômbia, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Brasil e Estados Unidos, incluindo Harvard T.H. Chan School of Public Health, Broad Institute e Wadsworth Center/NYSDOH. O Nagoya trata do acesso a recursos genéticos.
Para Sallum, a parceria fortalece a ciência brasileira ao unir conhecimento epidemiológico local com plataformas de genômica de ponta, ampliando o protagonismo nacional na pesquisa frente a desafios regionais da malária.
Resistência genética e implicações
O estudo identificou sinais de seleção em genes do citocromo P450, principais vias de resistência metabólica aos inseticidas. Variantes genéticas favorecidas ajudam o mosquito a neutralizar moléculas químicas antes de atingirem o sistema nervoso.
Essa adaptação sugere que mosquitos com maior capacidade de detoxificação sobrevivem e transmitem mais a doença, complicando o controle de vetores e de transmissão da malária na região.
Os autores ressaltam que a malária é problema transfronteiriço e que estratégias nacionais isoladas não bastam. A pesquisa aponta necessidade de políticas regionais para diagnóstico e controle de vetores.
Os resultados indicam que o Plano de Eliminação da Malária no Brasil exige vigilância entomológica qualificada e baseada em evidências locais, com uso estratégico de inseticidas e avaliação contínua de eficácia.
Texto: Assessoria de Comunicação da FSP, adaptado para o Jornal da USP por Júlio Bernardes.
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