- Estudo com participação da USP analisa 128 genomas completos de indígenas americanos de oito países e 45 populações, apresentados na revista Nature em 22 de abril.
- Os dados evidenciam diversidade genética complexa e apontam pelo menos três dispersões para a América do Sul, com diferenciação regional ao longo do tempo.
- Observa-se relação genética entre povos americanos e populações da Oceania, além de indicar três ondas migratórias no povoamento do continente.
- O trabalho combinou duas abordagens analíticas—identidade por descendência (IBD) e métodos coalescentes—para entender eventos recentes e antigos da história evolutiva.
- A pesquisa destaca desafios, como lacunas entre dados atuais e genomas antigos, e ressalta a importância de envolver comunidades indígenas para resultados clínicos, de ancestralidade e de saúde.
A pesquisa conduzida com participação da USP apresenta dados inéditos sobre a diversidade genética e a história evolutiva de povos indígenas das Américas. O estudo, publicado na revista Nature, analisou 128 genomas de indígenas de oito países da região, revelando uma riqueza genética até então pouco caracterizada e sugerindo três ondas migratórias distintas para o continente, com dispersões que atingem a América do Sul e marcas de diferenciação regional ao longo do tempo.
A equipe liderada pela pesquisadora Tábita Hünemeier, do Instituto de Biociências da USP, colaborou com grupos da Argentina, México, Bolívia, Peru e outros países. O objetivo foi entender melhor a ancestralidade, as rotas migratórias e as dinâmicas entre populações estabelecidas, levando em conta a visão de comunidades nativas envolvidas no projeto. Os resultados passaram por devolutivas acessíveis aos povos estudados, incluindo análises de ancestralidade e informações clínicas.
O conjunto de genomas de alta cobertura representa 45 populações e 28 famílias linguísticas, abrangendo Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, México, Paraguai e Peru. Além de ampliar a representação indígena na genômica, o estudo combina dados contemporâneos com genomas antigos para reconstruir a história evolutiva, incluindo a influência de migrações, isolamento e contatos entre grupos ao longo do tempo.
Metodologia e principais achados
Foram aplicadas abordagens distintas para capturar eventos recentes e mais antigos. A combinação de métodos de identidade por descendência e técnicas coalescentes permitiu observar tanto dispersões recentes quanto padrões de longo prazo, oferecendo uma visão mais completa da história genética das Américas. Os resultados indicam uma contribuição significativa da geografia, histórica de migrações e escolhas culturais para a diversidade genética atual.
A pesquisa também destaca desafios, como lacunas entre dados modernos completos e genomas antigos fragmentados, o que exigiu aproximações técnicas para estimar mutações e relações entre populações. Além disso, o clima brasileiro e o solo ácido dificultam a preservação de material genético para amostras futuras, impactando a coleta de DNA em algumas regiões do país.
Implicações e contexto histórico
Os dados sugerem que o povoamento das Américas envolveu ao menos três ondas migratórias para a região sul, com diferenciação regional ao longo de milênios. Observa-se afinidade genética com populações da Oceania em parte das análises, o que reforça a ideia de vínculos entre diferentes caminhos migratórios no passado remoto. A pesquisa também aponta que a colonização europeia deixou marcas duradouras na diversidade genética das populações indígenas.
Especialistas ressaltam que o estudo enriquece o entendimento do povoamento da América, ao situar as ondas migratórias e ao contextualizar a diversidade dentro de parâmetros antropológicos, culturais e linguísticos. Os resultados ajudam a ampliar a visão sobre a história evolutiva desses povos, destacando a importância de pesquisas colaborativas com comunidades locais para a produção de conhecimento e benefícios diretos para as populações estudadas.
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