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Macacos da ilha se automedicam para digerir comida de turistas

Macacos de Gibraltar passam a ingerir terra para mitigar os efeitos de uma dieta de origem humana, evidenciando impacto do turismo na vida selvagem

Um macaco-de-gibraltar comendo um sorvete que ele tomou das mãos de um turista
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  • Um estudo liderado pela Universidade de Cambridge aponta que macacos-de-gibraltar estão se automedicando ao ingerir terra para lidar com os efeitos da comida ultraprocessada roubada ou oferecida por turistas.
  • Em média, são registradas doze ingestões de terra por semana, com o solo funcionando como barreira digestiva e fornecendo minerais e bactérias benéficas ausentes nos alimentos processados.
  • A dieta dos macacos mudou: além de folhas e insetos, passaram a consumir chocolates, salgadinhos, sorvetes e biscoitos, representando cerca de 18,8% do que comem em um dia.
  • O comportamento é socialmente aprendido: em aproximadamente 89% dos casos havia observadores e quase um terço ocorreu de forma coletiva, indicando possíveis tradições locais.
  • A presença humana está ligada ao uso da geofagia: áreas com mais turismo apresentam 2,5 vezes mais probabilidade de ingestão de alimentos inadequados, com o verão registrando aumento significativo desse padrão.

Macacos da ilha de Gibraltar vêm se alimentando de terra para digerir itens ultraprocessados roubados ou trazidos por turistas. A prática, observada no Rochedo de Gibraltar, tem sido interpretada como uma resposta biológica e social às mudanças na dieta causada pela presença humana.

Um estudo liderado pela Universidade de Cambridge analisa esse comportamento em macacos-de-gibraltar, espécie europeia rara e livre. A pesquisa aponta que a automedicação com solo ocorre para neutralizar efeitos de alimentos ricos em calorias, açúcar, sal e laticínios.

A investigação foi publicada no final de semana emScientific Reports, com dados que apontam média de 12 episódios semanais de ingestão de terra e participação observacional de outros indivíduos em 89% dos casos.

Macacos tradicionalmente consomem folhas, sementes, ervas e insetos. Hoje, a dieta é influenciada por chocolates, salgadinhos, sorvetes e biscoitos, o que representa quase 19% do consumo diário em alguns indivíduos.

O pesquisador líder, Sylvain Lemoine, explica que o solo ingerido pode servir como barreira no trato digestivo, ajudando a mitigar o impacto de compostos nocivos presentes nos alimentos processados.

Geofagia como hábito social e cultural

A equipe constatou que a prática aparece de forma socialmente aprendida, com muitos casos observados na presença de outros macacos. Variações entre grupos indicam até tradições locais de escolha de tipos de terra.

Os dados indicam que a geofagia está fortemente ligada ao turismo: áreas com maior fluxo de visitantes apresentam maior probabilidade de ingestão de alimentos inadequados e concentram a maior parte dos episódios de solo.

Durante o verão, o período de pico de visitação, a frequência de consumo de ultraprocessados e de geofagia aumenta significativamente, enquanto grupos com menos contato com turistas apresentam esse comportamento com menos frequência.

Especialistas veem Gibraltar como um experimento natural sobre o impacto humano na fauna silvestre, revelando como ambientes antropogênicos influenciam comportamento e cultura de primatas.

Riscos e implicações

Embora a geofagia possa oferecer alívio fisiológico, ela também aponta para desequilíbrios na microbiota intestinal e desconfortos gastrointestinais, como náuseas e diarreia. O estudo ressalta que a prática pode aumentar a dependência de alimentos humanos.

Autoridades locais continuam proibindo a alimentação de animais, mas a prática persiste, frequentemente incentivada pela curiosidade dos visitantes ou pela facilidade de furtar comida.

Os pesquisadores concluem que adaptar hábitos alimentares na presença humana revela não apenas capacidade de aprendizado dos macacos, mas também a extensão da influência humana sobre ecossistemas protegidos, com sinais de alerta sobre os efeitos do turismo na vida selvagem.

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