- Professora do Instituto de Computação da Unicamp criou a disciplina de pós‑graduação “Feminismo de Dados” após identificar que algoritmos de IA falhavam em peles negras no diagnóstico de câncer de pele.
- A iniciativa, liderada por Sandra Ávila, começou no segundo semestre de 2025 e discute como os dados podem perpetuar preconceitos e impactos na saúde.
- O conceito “feminismo de dados” enxerga dados como forma de poder e envolve questões que vão além de gênero, mirando grupos minorizados, como negras, indígenas e pessoas com deficiência.
- A disciplina funciona com rodas de discussão, sem provas tradicionais na avaliação, e prioriza participação e projetos ao longo do semestre.
- Entre os trabalhos práticos, alunos analisaram investimentos na Unicamp, desigualdades por gênero e raça na universidade, e dados sobre inclusão de pessoas com deficiência em Campinas.
A disciplina de pós-graduação Feminismo de Dados, criada na Unicamp, busca enfrentar preconceitos evidentes em algoritmos de IA usados na saúde. A iniciativa nasceu após percepções de falhas em diagnósticos de câncer de pele em peles negras, o que motivou mudanças no currículo.
Sandra Ávila, professora do Instituto de Computação, iniciou o curso no segundo semestre de 2025. A proposta é discutir como dados podem perpetuar preconceitos e refletir sobre o poder dos dados na sociedade.
A partir da experiência prática, a docente percebeu que os bancos de dados usados para treinar IA não continham imagens de peles negras, resultando em diagnósticos menos precisos para esse grupo. A reflexão ganhou peso durante a pandemia, com leituras sobre ética em IA.
Dados como poder
O método apresentado aborda a ideia central de que dados configuram poder e influenciam decisões. O feminismo de dados, segundo Ávila, trata de quem tem acesso aos dados e quem fica à margem, ampliando o foco para grupos minorizados como negras, indígenas, pessoas com deficiência e comunidades periféricas.
A disciplina não se limita a questões de gênero, mas aborda desigualdades estruturais em diferentes contextos sociais, incluindo instituições públicas e privadas.
Como funciona a disciplina
A metodologia foge do modelo tradicional de aula. As sessões são conduzidas em formato de roda de conversa, estimulando o diálogo entre estudantes de várias áreas, como letras, engenharia de alimentos e computação. A avaliação privilegia participação e projetos, sem provas tradicionais.
A ideia é que os alunos aprendam a identificar vieses nos dados desde o planejamento de pesquisas e produtos de IA, evitando que problemas sejam corrigidos apenas após surgirem.
Aplicações práticas
Os trabalhos desenvolvidos na disciplina analisam dados sob a ótica do feminismo de dados. Um estudo avaliou investimentos em pesquisa na própria Unicamp, enquanto outro examinou desigualdades de cargos por gênero e raça. Outros projetos abordaram inclusão de pessoas com deficiência em Campinas e distribuição de empregos formais por sexo e raça no município.
Professora Ávila reforça que a ética e a inclusão devem ser consideradas desde o início, não apenas como remendos posteriores aos problemas.
Perspectivas e impactos
A disciplina propõe sete princípios norteadores: examinar o poder; desafiar o poder; valorizar emoção e corporalidade; repensar binarismos e hierarquias; promover o pluralismo; considerar o contexto; e tornar o trabalho visível. Os estudantes, por sua vez, ganham ferramentas para analisar dados com sensibilidade social.
O movimento é apresentado como uma resposta a falhas técnicas que impactam a vida das pessoas e como forma de ampliar a responsabilidade ética no desenvolvimento de IA. A Unicamp destaca a importância de incorporar perspectivas sociais desde o conceito até a implementação.
Entre na conversa da comunidade